quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Viagens: de sapos e do amor


 


Em minha infância, acreditava em transformação. Com o tempo, fui perdendo a espontaneidade do apostar e minha crença foi para algum lugar inalcançavel. Mas acho que sempre acreditei em transformação. Ainda que em minha própria vida não tenha provas inequívocas, meu ser, em corpo e alma, acredita. E conforme o tempo vai passando, vou me convencendo que há coisas que apenas são. São imponderáveis. Não se explicam. E faz parte da nossa abusada vaidade humana querer explicar o que só se pode acolher com as "entranhas". Esta pode ser nossa tragédia querer responder questões que não tem resposta e que são apenas prá serem vividas


O texto aí embaixo é uma história taoísta que descobri há algum tempo. Junto da história, fiz um resumo da interpretação dada pelo autor que fez a coletânea das histórias do mestre zen Paw Nokoko. Não se sabe ao certo se este mestre existiu ou não. Dizem que viveu por volta do fim do século VIII e tinha um único discípulo: Boundha. As histórias de Paw Nokoko tem a marca da irreverência, joga com as palavras e vai na contramão do convencionalismo.



Paw Nokoko fala sobre o amor

Boundha estava sentado à margem do lago do PEI do (significa: ¿o que vem das entranhas¿) quando um sapo, horrivelmente feio, pulou no seu colo e foi logo dizendo: Beije-me que me transformarei numa linda princesa¿. Boundha olhou demoradamente para o sapo, sua pele viscosa, cheia de manchas amarelas, a enorme boca, os olhos esbugalhados...Seu estômago doeu. Vacilantemente, mas cheio de esperanças, beijou-º O sapo continuou sapo. Boundha foi correndo falar com Paw Nokoko.
_ Mestre, por que não houve a transformação?
_ Porque você beijou com asco.




Só o amor transforma. Amor significa total aceitação. Nenhum julgamento.
O amor só é possível a partir do SER, da não-mente.
O amor é o único milagre possível, a mais autêntica alquimia: transforma o mundano no divino, o Silêncio na Divina Melodia.
O mistério do amor reside no fato de que é orgásmico encontro da vida e da morte. E a tragédia do amor é que você pode perdê-lo, se não fizer algo conscientemente.

Para atingi-lo há quatro degraus:

1. Estar no aqui-agora. O amor só é possível no presente. Passado e futuro são viagens do Pensar. O Pensar mata as emoções.

2. Aprender a transformar o veneno em mel. Alguns conseguem amar, mas o amor deles está contaminado pelo ciúme, raiva, possessividade. Todos frutos envenenados da mente. Se o veneno se mistura com o amor, vive-se no inferno, a loucura.
A transformação acontece só pelo observar. Não ser a favor nem contra. Não julgar. Unicamente, olhar a emoção sem nada fazer. Esperar pacientemente, quieto e indiferente. A emoção segue seu curso natural até o máximo, quando há a transformação.

3. Compartilhar. Toda emoção é um movimento da energia dentro de nós. Mover-se é seu atributo. Mas atenção! Só compartilhe a emoção positiva: a alegria, o êxtase, a celebração, o amor. As emoções negativas devem ser transformadas em mel. Não espalhe sua miséria pelo mundo.

4. Seja nada. Amor e ego não podem existir juntos. Com o ego você é muito. Com o amor você deixa de existir e só o amor existe. Este é o verdadeiro estado de humildade. O amor destrói o ego completamente, transformando-o num bambu oco, numa flauta. Então a Divina Melodia pode acontecer. Sendo NADA você atinge o TODO.

( Prashanto, O Dragão com asas de borboleta e outras histórias zen-taoístas



(Dezembro de 2003, nos tempos de transformação do veneno)