sexta-feira, 22 de junho de 2012


...no invisísivel: captura e unificação de resíduos


...eu lembro, alguém disse - Agnes Heller - só quem tem necessidades radicais pode querer fazer a transformação da vida. Necessidades que ganham sentindo na vida cotidiana, que vai se tornando insuportável porque não pode mais ser manipulada. Por que não dizer, "fabulada"?

...e outro alguém disse sobre resíduos - Henri Lefebvre-. Falou da necessidade de resgate e unificação dos resíduos, instalados nos subterrâneos, não capturados por poderes, pelas normas. Resíduos, virtualidades bloqueadas.

Momento de desencontros e encontros....Momento de ver a cara sombria dos fantasmas....Acho que todo mundo passou um dia..., né? a sensação de perdas, perdas sem fim...a constatação de que havia vazio, vida privada de sentido...

... pensava em alma sem cor, na dor do corpo e na mente anestesiada; em tudo que perdi; não perdi diamantes e ações na bolsa; não perdi casa, comida; não perdi namorados e amigos; até perdi emprego mas perdi sobretudo sentidos de trabalho; perdi sentidos de amizade e de amor, perdi convivências, perdi com-paixão; perdi olhar no horizonte, vida maior; as lágrimas corriam sempre, sem que eu me desse conta, e então eu disse:

_ perdi tudo, não tenho mais nada, não sou mais nada...

_ exatamente por isso, você por isso, agora você pode ser o que quiser...- foi o que eu ouvi em resposta; "jogo de palavras", não acreditei na hora; mas depois captei: podia ser isso mesmo, o que quisesse; mergulho na invisibilidade.

E daí recomecei..."invisível" com muito pouco do que acreditava ser importante e um tanto do que podia fazer a diferença, vislumbrava os resíduos em mim contidos, as fabulações do mundo e as necessidades radicais; e ensaiava...vislumbrava virtualidades bloqueadas e necessidades radicais, a minha volta; o preço a pagar: mais perdas, perdas de convivências; não sou mais mais ou menos; há quem não goste do menos; há quem não aguente o mais.

Anonimato, perdas, bloqueios ...indícios dos resíduos, das virtualidades em nós abrigadas, do caminho das fabulações, as nossas e do mundo. Reunião dos resíduos. Encontro com as necessidades radicais, aquelas que não podem ser mais capturadas.

..."filosofia da compensação"? "filosofia da auto ajuda"? ...sei não; acho que modo e possibilidades de vida; vislumbra melhor os resíduos e as fabulações da história, nossa e do mundo, o invisível, aquele que nada mais tem a perder, nem mesmo seus segredos, aqueles segredos que instalam-se como feridas, pelas quais é capaz de se matar e matar o outro; matar a vida contida em nós. O mundo pode ser dos invisíveis um dia. É preciso acumular vivências e saberes prá sustentá-lo.

2004

sábado, 31 de março de 2012

Talvez...Certamente....: um olhar prá o mundo, um método de trabalho, uma forma de vida




Eu tentei....E ainda tento...E quero me esforçar prá que autonomia e liberdade alcancem seu significado mais radical. Quero mais ser do que ter. Não quero ter pai e mãe, quero ser filha, vivendo o prazer de ser cuidada e cuidar, prá melhor viver. Não quero ter um rol de amizades ilustrando minha agenda, quero ser mais uma em várias redes de trocas e construções. Não quero ter um homem e um marido. Quero ser mulher e companheira, compartilhando emoções e sensações, construindo projetos. Não quero ter discípulos, ou educandos, quero ser um pedaço de caminho no percurso daqueles para quem trabalho. Um pedaço de caminho que os ajude na autonomia e na liberdade. Querendo ser, esperando que o outro seja.

Tão difícil... Construções sempre são plurais, envolve um eu e o outro. Eu e outro que confundem cuidado com superproteção. Partidas com abandonos, retiradas com desprezos. Eu e outro que não compreendem silêncios ou que reclamam atenção. Eu e outro que buscam controle. Eu e outro que esperam poder...

E na vida pessoal, pelo menos prá mim, sempre foi mais difícil. Talvez porque autonomia e respeito tenham sido limitados por inseguranças e controles. Talvez porque o outro lado da liberdade se chame medo. Talvez porque seja o reino onde os afetos fazem a festa e plantam as dores. Mas quem disse que é fácil? Ainda mais quando se sabe que há perguntas que possivelmente nunca serão respondidas.

Mas fiquei pensando...em meu trabalho com quem andei tão de mal, onde talvez tenha achado algumas pistas e outro dia andei refletindo sobre isso. Meio confuso mas acho que porque saiu meio no tranco...

Nunca foi fácil. Não, nunca foi. Desde criança. Via diferenças. Não via apenas diversidades. Via por detrás das cores, sons, gestos, jeitos e trejeitos múltiplos, as diferenças. E não compreendia muito bem porque o diverso era diferente. Talvez não fosse fácil porque me sentia diferente. Não falava quando éramos convocados a falar, responder ao professor. E falava no momento em que todos emudeciam em sala de aula. Na hora do faz de conta do debate em que todos deviam concordar com as idéias trazidas prá o debate, eu queria debater. Talvez não fosse fácil porque fazia muitas perguntas. Andava atrás de perguntas que me fizessem compreender o mundo das coisas que via a minha volta.

Logo, percebi que por detrás do diverso e do diferença, havia o desigual. Não era fácil. Havia um mundo de interrogações, ressoando em cada esquina da minha vida, que me faziam querer compreender: o mundo, pessoas, visões, atitudes, e eu dentro de todo este universo. Talvez por isso tenha ido fazer faculdade de história. Um dos caminhos de resposta. Queria entender porque as coisas se fizeram assim e não de outro modo.

Fui encontrando muitas respostas. A principal delas: eu não podia apenas obter respostas; elas nunca vinham prontas; precisava construí-las. Não era fácil. Era mais do que ficar dentro de uma sala, cercada de um monte de documentos buscando respostas. Como falar do mundo que nos rodeia e nos constrói, sem falar com ele?

Talvez por isso, tenha ido buscar outros percursos. Dando aulas em escolas públicas, e principalmente, trabalhando junto a projetos sociais nas favelas do Rio de Janeiro, ia tentando encontrar junto respostas junto com as pessoas. De quebra, procurava ajudá-las a construir saídas para suas vidas. Em nenhum momento, deixei de ver cores, sons, falas, jeitos e trejeitos múltiplos. Mas já sabendo que eles falavam de desigualdades, procurei compreender com as pessoas as razões daquilo que parecia diverso, mas que na maioria das vezes era desigual.

Penso que ajudei a criar alguns caminhos para que elas pudessem construir suas respostas e suas saídas. Construção compartilhada de autonomia, é o nome disso. É quando a gente se coloca diante do outro, não como aquele que diz O CAMINHO mas que constrói junto ele, numa relação de troca e respeito. Como diz uma grande amiga, que encontrei por aí, é quando a gente ajuda o outro a falar aquilo que ele sabe mas que não tem palavras prá dizer. E desta forma, juntos, revemos esquemas de pensamento já estabelecidos, abrimos fronteiras, criamos e construímos juntos nossa autonomia. Celebramos. Celebrar, em festa, faz parte do caminho. Momento de prazer, de se reconhecer e olhar um nos olhos do outro percebendo as mudanças realizadas no caminho.

E criamos novos atalhos que levam a outros paradas, até mesmo mundos, que quase sempre implicam separações. E saber partir faz parte do caminho. Liberdade é o nome disso. É quando a gente sabe o momento de partir, na certeza que o outro não só pode voar sozinho mas também o fará bem melhor sem nossa presença. É o momento que o outro já sabe que partida não significa abandono, e que guarda com ele todo o aprendizado da troca. Enfim, é a hora da gente voar, levando aquilo que aprendemos no caminho.

E aí outras perguntas vêm. Algumas, fui descobrindo, não há respostas. Para outras, precisamos buscar novos caminhos, novos parceiros. Mas há sempre algo que se repete em tudo disso: respeito, autonomia e liberdade, sempre no plural.

Não nunca foi fácil. Com certeza, sempre foi contramão. Na contramão de tudo que era esperado, do que aprendera, do que me diziam. Mas certamente, tornou-se um pouco mais fácil quando descobri que pode ser uma contramão coletiva, que dar respostas a vida e construir liberdade é algo que só se pode fazer em diálogo com o outro, que nos diz alguma coisa. 


2003

domingo, 11 de março de 2012

Em busca do sol: de alturas e entranhas


A águia gosta de pairar nas alturas, acima do mundo, não para ver as pessoas de cima, mas para estimulá-las a olhar para o alto 
( Elizabeth Kubler Ross)


Os Antigos, quando queriam prognosticar o futuro, sacrificavam os animais, consultavam-lhes as entranhas, e conforme o que viam nelas, assim prognosticavam. Não consultavam a cabeça, que é o assento do entendimento, se não as entranhas, que é o lugar do amor; porque não prognostica melhor quem entende, senão quem mais ama. (Padre Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga) 



Ali, comecei a perceber ali... há mais de dez anos. Ao meu lado, algumas mulheres ostentando seus ventres, pequenos, grandes ou imensos. A minha frente, só imagens de ultras de fetos, e fotos de nenens e gestantes. E eu ali, num laboratório, fazendo pela primeira vez ultrassonografia de um peito que, segundo minha médica, tornava-se mais velho do que eu. Não esteticamente mas fisiologicamente. Lembrava Woody Allen: As palavras mais belas da língua não são "eu te amo", são "é benigno". Nada tão grave mas eu sou dramática. Ou tragicômica. E só pensava a merda que fazia com minha vida. Merda de mulher! Me dei conta de que deixara meus sonhos prá trás e destruía meu futuro. Algum tempo depois, uma narrativa sobre a águia e seu processo de renascimento me caiu nas mãos. Virou minha "agenda de vida".

É bom quando a gente encontra "águias" em nossas vidas e se cerca delas. Encontrei algumas que, mais do que me estimularem a olhar para o alto, me ajudaram a olhar prá dentro. Acho que o vôo mais alto que dei em minha vida foi começar a olhar prá dentro. "Consultei minhas entranhas". Mapeei minha geografia. Cheia de medo mas sem concessões. Assustada, vi minha cara mais feia. Reconheci pedaços de gente aqui dentro. Pedaços de puro sol. Pedaços de lodo, com data de validade vencida. E pedaços perdidos de tempo. Pedaços ainda vibrantes de energia. E pedaços sem sentido. E enfim comecei a descobrir, "minha cara mais minha". Não acho que possa prognosticar meu futuro. Mas plantei sementes e me sinto grávida de vida, cheia de raízes e vasos comunicantes que dão sentido e intensidade aos meus desejos.

E com isso eu foi concluindo que realmente a gente precisa das duas dimensões. De um tanto de águia, de olhar além, no horizonte, entre ousadias e sonhos que nos movem. E outro tanto de raízes, no círculo da convivência, entre referências que nos guiam e ajudam a dar sentido aos sonhos. No diálogo entre estes dois lados talvez esteja a chave da libertação. 

(2003)





quarta-feira, 7 de março de 2012

a chama

...aprendi a não ter pressa
tal como uma vela
vivo em desalinho
e pacientemente

segunda-feira, 5 de março de 2012

Aprendiz da imensidão: mergulhando no colorido do céu branco


Imenso...como deve ser um céu branco escancarado...para receber as cores do universo. Meio épico, cheio de quadros. Coisa que entorta, entorna. E está sempre a tornar-se. Foi bem o que pensei quando li pela primeira vez as poesias destes dois que conjugaram seus verbos sem mapas, sem roteiros definidos.  De forma um tanto anárquica, sem medo de trazer ao público os verbos desregrados. Talvez porque saibam que o universo é mesmo inacabado. Ou porque se deram conta de as coisas que entornam e explodem precisam ser lançadas ao mundo, para que possam tornar-se...
Confesso, aqui falo como aprendiz. Aprendiz de uma poesia, que é mais do que verbo, é conjugação de verbos para falar das pequenas coisas imensas da vida.
Verbo impreciso. Sabe de dó. Sabe sentido. Não sabe de cor. Sabe de cor, de ação. Coisa do verbo com fome. Com precisão de vida. Verbo contemporâneo, devorador das coisas da cidade, do país, do mundo, em diálogo com verbos alheios. Verbo sentido, lançado em céu branco e dando cor à vastidão do universo a dois. Verbo carícia, denunciando a imensidão da gente,  homens e mulheres, meninos e meninas incertos e precisos. Verbo humano, querendo deslocar o tempo, ora urgente, ora paciente.
Mergulhando no céu branco, a gente vai percebendo...Vejam só...as cores vão aparecendo em tons mais que multi.  Lá vêm eles, tons que desmancham a vida  em binóculo. Cheiram, olham, fazem vibrar, tocam, molham...fundem-se, nos atravessam, nos entornam. Tons...abrigados em palavras que falam de tudo que é intensidade na gente.
Mergulhando no céu branco, a gente se dá conta do quanto ele pode ser imenso, quando arregaçado e pintado por nós. No colorido céu branco destes poetas, há um pouco de tudo que habita em cada um de nós e no entre nós. Às vezes, sombra de quem tem medo. Ou de quem vive em vazios. Ou de quem tem dor. Dor de desejo. Outras vezes, TNT, daqueles que só explode nas vidas que se enlaçam em nós. Outras tantas, sabor de fruta suculenta que a gente colhe no pé e se esparrama a dois prá comer. Mas aprendiz que sou, sei que há mais ....porque quem colore é sempre o leitor, amante - aprendiz de poesia que, por definição, como diz Manoel de Barros, “ é voar fora da asa”. Roubando novamente as palavras do poeta, poesia que responde ao coração das coisas, que  “não querem ser mais vistas por pessoas razoáveis: desejam ser olhadas de azul”.
E os poetas amantes apostam na ousadia de arregaçar a vida e reinventar o eu, os nós e o mundo. O segredo? Simplesmente, olham de azul.

Marize Cunha, a madrinha caipira

(prefácio ao livro Das Cores de um Céu Branco de Karina Lerner e Ronaldo Januário, janeiro de 2005)


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

No lixo cinza do universo: que fazer?




Há algum tempo, um amigo respondeu a um texto que escrevi com um trecho de um poema de Maiakóvski, que eu não conhecia. Maiakóvski era um poeta russo das ruas, de comícios, de fábricas, da leitura de poemas pelo rádio... Revolucionário, do ponto de vista social e literário


A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha (1)


A tarde ardia em cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
¿Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!¿
E grito ao sol:
¿Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!¿
E grito ao sol:
¿Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?¿
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
¿Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!¿
Lágrimas na ponta dos olhos
_ o calor me fazia desvairar ¿
eu lhe mostro
o samovar:
¿Pois bem,
sente-se, astro!¿
Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta (2),
etc.
E o sol:
¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!¿
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
¿Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.¿
O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.


1920 (Tradução de Augusto de Campos)


(1) Datcha: casa de veraneio
(2) Rosta: agência telegráfica russa, para a qual Maiakóvski executou cartazes satíricos de notícias.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sangrando...



Há coisas que me fazem sangrar. Elas tomam forma nas notícias de jornais, em atitudes de pessoas que me cercam, em coisas que vejo pelo mundo, em minha vida, na minha vida cruzando com vidas outras.

Elas andam em círculos fechados. Não olham pra o lado. Não olham pra frente. Não editam memórias. Não visualizam horizontes. Vivem com medo. Vivem do medo. De criar medo. Produzem enredos solitários, vidas em ilhas. Anunciam bandidos e vítimas a cada dia. Desumanizam. Nos roubam potência, querendo nos privar de forças, de horizontes.

É o silêncio que consente. É o vazio que fere. É a palavra que quer cortar. É uma maneira de dizer sim quando já é hora de gritar CHEGA. De lamentar aprisionando quando se faz urgente combater sem prisões. São as armas assassinas. Que engolem vidas. Às vezes em intensa velocidade, às vezes aos poucos.

São armas de guerra, mas que negam conflitos, sem encara-los. Jamais fazem vibrar a vida em infinito porque desconhecem as fronteiras, desconhecem o infinito. O infinito capaz de ver o outro. O outro que está em cada canto do mundo. O outro ao nosso lado. O outro no canto de nós.

São armas de guerra que produzem a vida em drama, sem lançar sementes que permitem arrebentar os nós que nos sufocam e nos engolem. São as armas no mundo político. São as armas no mundo de trabalho. São as armas em nosso universo doméstico. Armas que são mais perigosas quando invisíveis.

Estou cansada e impaciente. Pensei ser a idade mas agora vejo que é o vigor, a radicalidade do vigor. Ainda tenho sangue suficiente mesmo sangrando. Estou apagando tudo que anda em círculo e não vibra em infinito. Os que se recusam a experimentar o experimental, em experimentar a vida como ela é, experimental. Os que derrubam os que estão a frente. Quero apenas aqueles que se permitem levitar, estendendo as mãos para quem está e para quem passa. Quero apenas aqueles que amam na dança épica. Porque é aí que não temos fronteiras, nem prisões, nem receitas, nem falas decoradas, nem papéis protagônicos, nem pré destino...Apenas somos e deixamos ser. 

novembro de 2004

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ato de amor: diversão

 

Aprendi o cuidado, respeitar a fala e a temperatura do meu corpo. E o ritmo deste coração que só quer quietude. Em noites assim, escolho, tramo...Eu é que reino, soberana...

A casa, vazia. A noite, silenciosa. A lua, cheia, azul, segunda do mês que termina. Não sei o que significa mas parece que algo aqui dentro sabe porque resolveu celebrar. O fogo manso, em incenso. O vinho, tinto. O corpo, semi coberto, em branco e o véu, laranja. E eu, em sangue, aqui comigo, sem contar dias, sem fazer contas. É isso que quero, é disso que preciso.

Danço prá mim. Erguendo-me, do chão. Da terra, buscando o ar, o céu. Voltando à terra prá então paciente, cheia de ar, subir mais uma vez, levantar o peito, buscar... livre. Mover, mover, mover sempre... Vibrando...

Do meu corpo, vai correndo a água. Do ventre, do coração, sai medo, tristeza, coisas que devem partir ... e o suor escorre... Sobre a face, as lágrimas e o véu me cuidam. Só calor, fica por todo o corpo. Me curo. Me molho....e outro mundo me atravessa...Deixo-o entrar. Sorrio, abrigo.

Divido...Já não danço prá mim, danço prá ele. Corpo sem freios, coração sem vergonha. Tramo por ele, do jeito que sei. Cheia de água, com fantasia... Peço por ele... proteção, liberdade, coisas diversas... soberanas.

Reino, cúmplice...amor tem a ver com desvio, com mudança de direção, diversão... 

(2004)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Desde los afectos

Cómo hacerte saber que siempre hay tiempo?
Que uno tiene que buscarlo y dárselo...
Que nadie establece normas, salvo la vida...
Que la vida sin ciertas normas pierde formas...
Que la forma no se pierde con abrirnos...
Que abrirnos no es amar indiscriminadamente...
Que no está prohibido amar...
Que también se puede odiar...
Que la agresión porque sí, hiere mucho...
Que las heridas se cierran...
Que las puertas no deben cerrarse...
Que la mayor puerta es el afecto...
Que los afectos, nos definen...
Que definirse no es remar contra la corriente...
Que no cuanto más fuerte se hace el trazo, más se dibuja...
Que negar palabras, es abrir distancias...
Que encontrarse es muy hermoso...
Que el sexo forma parte de lo hermoso de la vida...
Que la vida parte del sexo...
Que el por qué de los niños, tiene su por qué...
Que querer saber de alguien, no es sólo curiosidad...
Que saber todo de todos, es curiosidad malsana...
Que nunca está de más agradecer...
Que autodeterminación no es hacer las cosas solo...
Que nadie quiere estar solo...
Que para no estar solo hay que dar...
Que para dar, debemos recibir antes...
Que para que nos den también hay que saber pedir...
Que saber pedir no es regalarse...
Que regalarse en definitiva no es quererse...
Que para que nos quieran debemos demostrar qué somos...
Que para que alguien sea, hay que ayudarlo...
Que ayudar es poder alentar y apoyar...
Que adular no es apoyar...
Que adular es tan pernicioso como dar vuelta la cara...
Que las cosas cara a cara son honestas...
Que nadie es honesto porque no robe...
Que cuando no hay placer en las cosas no se está viviendo...
Que para sentir la vida hay que olvidarse que existe la muerte...
Que se puede estar muerto en vida..
Que se siente con el cuerpo y la mente...
Que con los oídos se escucha...
Que cuesta ser sensible y no herirse...
Que herirse no es desangrarse...
Que para no ser heridos levantamos muros...
Que sería mejor construir puentes...
Que sobre ellos se van a la otra orilla y nadie vuelve...
Que volver no implica retroceder...
Que retroceder también puede ser avanzar...
Que no por mucho avanzar se amanece más cerca del sol...
Cómo hacerte saber que nadie establece normas, salvo la vida?


Mario Benedetti

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sons da carne, sons da alma

...decifro os sons...eles me dizem que é diferente de tudo que me fizeram acreditar...

eu não sei bem dizer o que é....podia dizer ferida, podia falar trauma; mas tudo isso não dá conta de dizer daquilo que não é fixo, que não tem casca, não tem limite e lugar definido, nem uma origem que explique, e muitas vezes nem dói, nem sinal de vida dá...


...ficam abrigadas bem lá no fundo, num lugar onde nem a gente alcança com um simples ato de vontade; fixam-se em nós mas jamais do mesmo tamanho; crescem devagarzinho, tomando espaços cada vez maiores, comprometendo pedaços imensos de nossas vidas, freqüentemente limitando, nosso tamanho, nossa potência, nossa existência; nos transformam em sombras; ainda que bem feitas e acabadas, sombras que se alojam num original que não encontra espaço prá crescer e precisa vicejar.


quando espalham-se transmutam-se naquilo que vai sendo chamado carências, vazios, traumas, coisas mal resolvidas... Mas não....custei a descobrir... não são coisas que faltam; não são coisas "do mal"; são apenas emoções que não tiveram o cuidado merecido; às vezes, porque lhe demos proporção demais; em outros casos, demos atenção de menos; quase sempre, recusamo-nos a compartilhá-las com alguém, acreditando que elas só habitam em nós. Às vezes, é vergonha. Às vezes, é medo. Quase sempre é recusa de rememorar acreditando que ao fazê-lo iremos vivê-las novamente...


...são emoções que habitam em nós como resíduos, uma espécie de segredo, emoções silenciadas, meio que oprimidas, que nunca puderam ser tratadas com cuidado e liberdade. Aquilo que não é, não foi ou ficou a deriva... Porque não quisemos. Porque não pudemos. Porque não deixaram. Porque não era o tempo possível.

 

algumas vezes, alguém ou algo as atinge, involuntariamente. Uma palavra, uma cena de filme, uma música, uma situação que tem o tom de repetição....Uma espécie de tortura... As emoções se traem e as áreas silenciadas falam. Ouvimos o lamento, o choro, os gritos...Traduzimos tudo em dor, ferida e as cobrimos com o manto sombrio, do medo. ... não compreendemos seu som, o grito da vida, um grito pelo cuidado merecido, por liberdade, por mutação...
 

olhos e ouvidos fechados ao possível...o Possível? Palpável? Tangível?

às vezes, algo ou alguém as alcança, involuntariamente, com carinho... Um brilho de sol, um artefato de vida, um mensageiro dos deuses, uma situação que tem o tom da transformação... Uma espécie de cura...O que era silêncio sombrio parece ir se transformando...Sentimos a melodia suave que acorda os pedaços inertes atingidos pela sombra. Podemos ouvir o grito da vida. Começamos a ficar do nosso tamanho... Iluminamos os sons e deciframos aquilo onde um dia vimos apenas gritos, lamentos, choros, silêncios sufocados. Reconhecemos sua música. Desejo. Liberdade! É disso que fala. É esta sua versão. 


setembro de 2004 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

De meu pai

O amor é o círculo infinito de brincar com a magia da vida



Meu pai possuía uma maneira bem particular de contar histórias prá mim, quando eu era pequena. Não se alongava muito. Abreviava tudo. Mas todas as lembranças que possuo de histórias infantis estão associadas a ele. Ironicamente, meu pai, sempre tão calado e objetivo, era o personagem da minha infância que dava asas a minha imaginação.

De vez em quando, quando eu me vestia de "gente grande" e desfilava pela casa, ele me observava, escondendo um sorriso. Eu via seu sorriso e acreditava que ele debochava de mim. Custei compreender que o sorriso era de pai orgulhoso da filha e que as fotografias que ele tirava de mim, revelavam isso.

Quando fui morar sozinha, ele não disse uma só palavra. Nem de apoio. Nem de censura. Senti que ele não gostou muito. Mas ele nada disse. Assistiu minha mudança em silêncio.Algumas semanas depois, já instalada no novo apartamento, ele apareceu no meu apartamento. Com seu jeito peculiar, ao invés de tocar o interfone, bateu na janela da sala do apartamento, que ficava no térreo de um pequeno prédio. Abri a porta e ele apareceu com uma televisão. Me deu a televisão novinha mas não ficou muito tempo. Não chegou para visita. Chegou para me dar a única coisa que faltava na nova casa.

Este era meu pai, até alguns atrás. Sem muitas palavras. Muito conciso. Às vezes distante. Escondendo sorrisos e sentimentos. Sempre me obrigando a olhar além, e compreender sua maneira de se fazer presente em minha vida e amar. Precisei caminhar muito para entendê-lo mas ao fazer isso, consegui também me entender e ver melhor o mundo. E consegui perceber o quando há dele em mim.

Depois de tanto caminhar para compreendê-lo, ele mudou! Alguns dizem que foi meu sangue, que doei a ele em uma transfusão. Uma metáfora para tamanha mudança, que transformou um homem calado num falante. Um homem, às vezes quase sombrio, em uma pessoa bem humorada, sempre pronta para viajar, e alegrar a viagem com suas piadas. Um homem que, depois de muitas décadas de casamento, passou a manifestar a adoração pela mulher com quem casou, montando painéis de suas fotografias.


Amanhã é aniversário dele. Queria falar dele. Agradecê-lo por ter me ensinado tanto e nunca ter deixado de estar presente em minha vida. Por ter confiado em mim e respeitado cada uma das escolhas que fiz. Agradecer por poder contar com um amor assim, como o dele e de minha mamy. Agradecer por ter aprendido o que é amor incondicional. Agradecer pelas vidas daqueles que me abriram caminho para eu fazer a vida. Agradecer por ter me acolhido no momento em que mais precisei, sem me julgar. Simplesmente acolher, incondicionalmente.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O mundo será dos sensíveis ou prá onde esta porra deve ir





...Quando as pedras rolam, não adianta tentar desesperadamente fazê-las parar....é preciso calma...aos inimigos, firmeza e desprezo por sua mediocridade...aos aliados, suavidade e amor...

e há tanta coisa ecoando aqui... e eu tentando dar sentido a elas...

Tenho visto tanta gente, tanta gente que gosto, esforçando-se prá achar saída, ou achando que não tem saída...e o pior, acreditando que o problema é delas. Eu faço parte desta gente. Daquelas que não sabe muito bem aonde estará amanhã e que não vê muito sentido em boa parte daquilo que me aprendeu...em boa parte daquilo que acreditou como promessa de vida...estabilidade, casamento, filhos, um mundo em equilíbrio, um "mundo doriana"....Vendem-nos a idéia de que estamos fracassando... quando, na verdade, é nosso modo de vida enquadrado que já fracassou.

E tentamos desesperadamente sobreviver seguindo suas normas, referências, moral...medo do novo...vivemos com medo de apostar no novo porque é duro prá caramba construir sob novas bases e reaprender

...acho mesmo que vamos precisar aprender. Aprender a compartilhar, a sermos mais despreendidos, a abrir mão...Aprender a dar. Aprender a não ver o outro como um calo no sapato.

...ah, dar é bom demais! Muito bom... Mas é preciso fazer com espontaneidade porque a falta dela estraga o prazer. Razão demais, quando se trata de dar, estraga o prazer....

E receber... Porque é preciso aprender também a receber. Nunca pensamos o quanto damos ao outro, quando sabemos dele receber...

Aprender a usar as coisas prá além do nosso umbigo...Usar nossa casa prá além do ¿santuário doméstico¿...casa, papai, mamãe e filhos...não só...casa como abrigo de amigos, como espaço de compartilhamento, agregação...Usar internet como lugar de troca de valores, idéias, informações e afeto...E não de poder, controle de informação...

Não há saída humana possível que não passe pela troca, intercâmbio, escambo. Trocas várias que nos sustentem no mundo. Não apenas sustentação material. Mas afetiva, espiritual, ética...

....sobre isso, minha experiência de trabalho nas favelas e minha própria vida nos últimos anos me ensinou....quem vive na pobreza tem muito a ensinar a classe média, inapta prá sobreviver na adversidade...quem vive na pobreza sabe que é necessário compartilhar mais do que coisas materiais...que é preciso compartilhar informações, articulações, afetos...tudo aquilo que quem não conhece chama de fofoca, favores....

...fico olhando longe e pensando....não vou estar aqui prá ver esta história mas sinto...o mundo não será dos filhos da puta porra nenhuma...O mundo será dos sensíveis, daqueles que sabem sobreviver na troca, que resistem às fábulas da nossa sociedade individualista porque não podem ser individualistas ou porque não acreditam nela...

O mais forte não é o que toma o último avião e apaga a luz...Este é o mais escravo...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Da vida, dádivas

Estou em busca de uma postura generosa, um ato humano.

Generosidade e desapego... o que mais ficou da vida nos últimos anos. Nada a ver com coisas de '"boazinha". É coisa de buscar um outro olhar sobre a vida, uma nova atitude que dê conta da vibrante dinâmica do universo. Agregando o estranho. Tornando familiar o estranho. E desapegando-se do familiar, estranhando e desnaturalizando o familiar. Abrindo mão do familiar que não tem mais lugar no nosso dia a dia, no nosso mundo.
Bom saber que não levei umas porradas a toa. Que as perdas não foram em vão. Que as perdas foram prá ganhar. Isso eu sabia. Mas hoje sei também que elas foram prá me tornar mais leve. Me fazer mais livre. Me tornar um pouco mais plena. O suficiente prá reconhecer o sabor da vida. Da dádiva e do quanto ela pode potencializar. Curar em horas sem fim. Não, não tão plena que não esteja sujeita a mais porradas e perdas...demasiadamente humana...
...E prá passar a frente. Deixar um tanto de coisas por aí, no mundo.
Bom pensar o quanto a dádiva pode nos ajudar a encontrar caminhos...que a vida vibra e ganha em horizonte quanto mais se doa, se troca, e mesmo se perde.




sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

_ para onde vai?

_ não sei. mas sei que para aquele cantinho, eu não vou não. vou para algum lugar além

a dádiva e as asas

importar do latim importare significa trazer para dentro. quando a gente se importa traz para dentro, pessoas, coisas do mundo. e ao trazê-lo, se amplia no mundo. se conecta a tudo que tem vitalidade e faz o mundo mover-se. 
Minha amiga Fabiana é uma destas pessoas, que se importa. Me deu uma linda dádiva.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

a gente pode olhar o mundo de vários lugares. basta criá-los e não seguir apenas o que está dado. venho pensando sobre isso, farejando lugares possíveis de criação, que não esterilizem, que ajudem a produzir minha autonomia e dos outros.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

...

Desta janela, eu vôo. Conversando com Manoel de Barros, eu não sei fazer poesia mas bem que vôo fora da asa. Quando a gente é gente, e por isso se machuca, aprende a voar fora da asa.

Transbordes....Viagens...Conspirações...ou seriam conspirAÇÕES?



 
 
Este texto foi inscrito, depois de uma conversa inspiradora com minha amiga Karina Lerner, lá pelos idos de 2003. Ainda penso nele, ainda penso em seus sentidos.


Carente sim. De vitaminas, ferro e sais de minerais. Fome e desejo??? São outros transbordes, que quem sabe é meu corpo e  nós temos mesmo é necessidades, naturais. E sociais, produzidas a partir das mudanças que os tempos vão trazendo prá nossas vidas, e mais ou menos limitadas de acordo com o lugar que ocupamos na sociedade. Naturais de comer e beber, fazer sexo, ter afeto, fazer coisas no banheiro. Comer bem, trabalhar, ter saúde, estudar, ter um som, computador, acesso a internet, celular etc e todas as maravilhas que vão facilitando nossas vidas, abrindo nossos mundos. Algumas vão se tornando radicais porque, em meio aos conflitos e diferenças da sociedade, vão nos fazendo brigar por direitos que nos são negados.

E temos desejos. Transbordamos de desejos. E não de carências. De comer o que curtimos, saborear uma bebida que gostamos, conversar com as pessoas que nos fazem bem, fazer sexo gostoso, "se embalar na rede matando a sede na saliva...", dançar, cantar, urrar, falar besteiras, "blás blás blás" e "ti ti tis"e fazer o que nos dá prazer, e reforça nossa presença no mundo, sem nos pasteurizar por aí.

Precisamos de tudo isso prá viver a vida que nos é de direito. E não há uma hierarquia nestas coisas, tipo primeiro as naturais, depois as sociais e, por fim, os desejos.

O desejo não nos coloca no lugar da vítima, que deve ser salva por algo de fora, seja o governo ou uma cesta básica assistencial. Na vida pessoal, um super amigo ou na versão mais radical, um super homem, uma super mulher. O desejo não é produzido num outro lugar e entulhado em nós. É criado em nós enquanto nos relacionamos, e envolve escolhas, ainda que muitas vezes negadas, ou mal enfrentadas. O desejo é afirmativo de vida. Não fala de falta, nem de vazios, nem de buracos, nem incompletudes. Fala de coisas humanas, com as quais podemos tornar nossa vida muito melhor, e nos sentirmos menos frágeis, vulneráveis, aquém de tudo. E o desejo cutuca aquilo que de melhor habita em nós e nos valoriza: nossas potências, nosso diferencial em meio aquela coisa toda igual que aparece nas propagandas e que não vamos alcançar nunca. Cutuca o que é nosso, e que é bom demais porque é real, e não faz de conta, embora a gente nem sempre veja. É perverso que a gente veja a beleza da Giselle coisinha e não veja o que há de belo escondido em nosso corpo. Que a gente olhe o sucesso do outro e não se dê conta da diferença que fazemos prá tanta gente em nossas relações de trabalho. E por aí vai...

O anúncio recorrente da carência coloca panos quentes naquilo que borbulha e vibra em nós, nos empurrando prá ir além. Não é a toa que adoro aquela música dos Titãs. Nos tira do lugar em que tentam nos colocar, de que não precisamos de tudo que temos direito prá viver. E afirma a vida, nos empurrando prá ir construí-la e não esperar que alguém, ou o destino, faça isso por você. Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

flechas

este dia de são sebastião do rio de janeiro foi um dos piores dos últimos tempos. tantas flechas cravejando meu coração analfabeto. uma dor, que para ser combatida, exige que eu saia daqui.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Deslocando



...muito pouco vejo desta janela; daqui meu olhar não atravessa concretos; não vejo o mar, nem o infinito; vejo os conflitos que separam e aprisionam a todos; daqui vejo uma infância tragada por sonhos e esvaziada por perdas; uma juventude fugidia e grave, imersa na dor das perdas; daqui reinterpreto um passado e recupero doces rituais, uma inocente criança, um certo gosto exagerado de doce, um firme e necessário aprendizado de vencer o medo e encarar o amargo da vida.

daqui volto, de uma janela estreitada, uma alma em expansão, procurando dentro, tudo que me trouxeram de fora.

ingressando na primavera de 2011

Na fronteira




"Abraço desilusões, levo para passear minha tristeza
diante do mar, feito um cachorrinho"

(Ronaldo Januario, Num Sonho)