terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

De meu pai

O amor é o círculo infinito de brincar com a magia da vida



Meu pai possuía uma maneira bem particular de contar histórias prá mim, quando eu era pequena. Não se alongava muito. Abreviava tudo. Mas todas as lembranças que possuo de histórias infantis estão associadas a ele. Ironicamente, meu pai, sempre tão calado e objetivo, era o personagem da minha infância que dava asas a minha imaginação.

De vez em quando, quando eu me vestia de "gente grande" e desfilava pela casa, ele me observava, escondendo um sorriso. Eu via seu sorriso e acreditava que ele debochava de mim. Custei compreender que o sorriso era de pai orgulhoso da filha e que as fotografias que ele tirava de mim, revelavam isso.

Quando fui morar sozinha, ele não disse uma só palavra. Nem de apoio. Nem de censura. Senti que ele não gostou muito. Mas ele nada disse. Assistiu minha mudança em silêncio.Algumas semanas depois, já instalada no novo apartamento, ele apareceu no meu apartamento. Com seu jeito peculiar, ao invés de tocar o interfone, bateu na janela da sala do apartamento, que ficava no térreo de um pequeno prédio. Abri a porta e ele apareceu com uma televisão. Me deu a televisão novinha mas não ficou muito tempo. Não chegou para visita. Chegou para me dar a única coisa que faltava na nova casa.

Este era meu pai, até alguns atrás. Sem muitas palavras. Muito conciso. Às vezes distante. Escondendo sorrisos e sentimentos. Sempre me obrigando a olhar além, e compreender sua maneira de se fazer presente em minha vida e amar. Precisei caminhar muito para entendê-lo mas ao fazer isso, consegui também me entender e ver melhor o mundo. E consegui perceber o quando há dele em mim.

Depois de tanto caminhar para compreendê-lo, ele mudou! Alguns dizem que foi meu sangue, que doei a ele em uma transfusão. Uma metáfora para tamanha mudança, que transformou um homem calado num falante. Um homem, às vezes quase sombrio, em uma pessoa bem humorada, sempre pronta para viajar, e alegrar a viagem com suas piadas. Um homem que, depois de muitas décadas de casamento, passou a manifestar a adoração pela mulher com quem casou, montando painéis de suas fotografias.


Amanhã é aniversário dele. Queria falar dele. Agradecê-lo por ter me ensinado tanto e nunca ter deixado de estar presente em minha vida. Por ter confiado em mim e respeitado cada uma das escolhas que fiz. Agradecer por poder contar com um amor assim, como o dele e de minha mamy. Agradecer por ter aprendido o que é amor incondicional. Agradecer pelas vidas daqueles que me abriram caminho para eu fazer a vida. Agradecer por ter me acolhido no momento em que mais precisei, sem me julgar. Simplesmente acolher, incondicionalmente.

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