Perdendo....então levanta e anda...
"De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás”
Cazuza
Houve um tempo que achei que era forte, ou pelo menos mais forte.
Um dia, ainda menina de 10 - 12 anos eu cuidava da minha avó. Eu, minha irmã e meu irmão ajudavam minha mãe a cuidar da minha avó, que tinha alzheimer, e depois de um tempo passou a viver em uma cama de hospital em nossa casa. Não era uma escolha. Precisávamos fazer isso, pois os cuidados eram 24 horas, e mesmo com enfermeiras, minha avó requeria atenção. E minha mãe precisava de apoio.
Confesso que não sabia bem o significado de tudo aquilo mas sei que foi minha avó que me apresentou a dor que se prolonga cotidianamente. Quando ela já estava acamada, eu e minha irmã ajudávamos a alimentá-la, controlar sua temperatura, a trocá-la, a limpá-la, a lhe dar banho. Tão nova, eu aprendi a não sentir qualquer inquietação diante de uma pele enrugada, do cheiro da velhice e das marcas de uma mastectomia.
Tão nova, eu aprendi a descobrir na dor, alguma forma de resistir e me divertir. Os momentos em que ela estava melhor e mais falante, o que significava que alucinava mais [tinha alzheimer, embora não identificássemos assim naquela época], eram os momentos de minha diversão de menina. Eu ria com o que ela falava e fazia. E mesmo doente, minha avó era muito bem humorada e engraçada. Em seus piores momentos, eu era apresentada a dor e ao medo de perder aquela que era minha maior referência de calor. Eu sentia frio e medo, e algumas vezes, eu me refugiava embaixo de sua cama de hospital. Isso marcou tanto minha vida que ao longo dos anos posteriores, em várias situações de dor, eu me refugiei em algum lugar, com frio, recordando seu calor.
Mas de alguma forma, me apresentando a dor, minha avó marcou minhas escolhas de vida. Nunca tive dúvidas que minhas opções de vida e profissionais foram marcadas pela convivência com sua generosidade, seu calor e a dor de sua doença. Eu não seria o que sou se não estivesse ao lado dela em seus últimos anos de vida.
Este foi um das maiores dádivas - e ensinamentos- que minha mãe me deu. Ela nos exigia que ajudássemos nos cuidados com minha avó. Algumas vezes aquilo que me revoltava. Eu queria passar a tarde na praia mas precisava voltar para a casa a fim de ajudar minha mãe. Mas ela nos ensinava que todos faziam parte da casa, onde minha avó vivia. E ao fim das contas, acho que devo a minha mãe uma mudança de destino. Ter deixado de ser uma menina mimada que achava que podia ter tudo e aprender os significados das palavras compaixão e compartilhar. E ainda, descobrir que eu podia ser mais forte do que supunha.
Porque se minha avó foi minha maior referência de calor, minha mãe foi minha referência de dor. Quando eu caía, literalmente ou enfrentava algum desafio, era ela quem me dizia: Levanta e anda. Ensinou-me Emicida, quando ainda era pequena. Não houve um só momento difícil da minha vida, em que minha mãe não esteve ao meu lado, nunca doce com a melhor imagem das mães. Mas firme dizendo sempre algo como Levanta e Anda.
Talvez por tudo que aprendi cuidando da minha avó, e da força que minha mãe me inspirava, não foi tão difícil estar com minha mãe quando ela adoeceu. Eu sabia que não podia mais me refugiar com frio. E nem podia. Eu precisava estar a seu lado, cuidando dela, e assegurando-lhe que tudo ficaria bem quando ela partisse. Eu sei que era esta a resposta que ela precisava. Perder uma mãe, especialmente quando ela é sua maior referência de força, devia ser algo proibido. Mas a gente descobre força que não sabe existir dentro da gente. E eu ainda tinha meu pai para cuidar.
Meu pai, minha maior referência de afeto, que me contava histórias para dormir e ia ao meu encontro quando, ainda criança, acordava no meio da noite com medo. Meu pai, minha maior referência de valores, de ética, de cuidado com o outro. Ele está aqui. 90 anos de vida. Anos de vida, sustentando nossa família com seus valores, simbólicos e materiais. Olho para ele e penso o quanto o amo. Me lembro como ele me salvou a cada vez que me levava mamadeira morna na cama para eu me acalmar. Como ele me impediu de cair, antes que eu estatelasse no chão e minha mãe dissesse: levanta e anda.
Minha dor não é vê-lo partir aos poucos. É não poder fazer nada por ele. Nada. Eu, que um dia acreditei que era forte, me vejo fraca e estilhaçada, sem saber conviver com este pai que se afasta de mim. Não por que está no fim de sua vida mas porque me olha, sabe quem eu sou mas não pode mais me ver. Não pode caminhar ao meu encontro.
Em um momento em que o mundo ao meu redor, que a situação política e social grita para que meus valores, os valores que meu pai me ensinou, resistam, eu me vejo deslizando num mundo sem cor, em uma imensa impotência. Um voz ecoando dentro de mim: não sei nada, não sou nada, não posso nada. E sequer consigo escutar: então levanta e anda.
