sexta-feira, 2 de novembro de 2018


Perdendo....então levanta e anda...





"De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás”

Cazuza




Houve um tempo que achei que era forte, ou pelo menos mais forte. 

Um dia, ainda menina de 10 - 12  anos eu cuidava da minha avó. Eu, minha irmã e meu irmão ajudavam minha mãe a cuidar da minha avó, que tinha alzheimer, e depois de um tempo passou a viver em uma cama de hospital em nossa casa. Não era uma escolha. Precisávamos fazer isso, pois os cuidados eram 24 horas, e mesmo com enfermeiras, minha avó requeria atenção.  E minha mãe precisava de apoio. 

Confesso que não sabia bem o significado de tudo aquilo mas sei que foi minha avó que me apresentou a dor que se prolonga cotidianamente. Quando ela já estava acamada, eu e minha irmã ajudávamos a alimentá-la,  controlar sua temperatura, a trocá-la, a limpá-la, a lhe dar banho. Tão nova, eu aprendi a não sentir qualquer inquietação diante de uma pele enrugada, do cheiro da velhice e das marcas de uma mastectomia. 

Tão nova, eu aprendi a descobrir na dor, alguma forma de resistir e me divertir.   Os momentos em que ela estava melhor e mais falante, o que significava que alucinava mais [tinha alzheimer, embora não identificássemos assim naquela época], eram os momentos de minha diversão de menina. Eu ria com o que ela falava e fazia. E mesmo doente, minha avó era muito bem humorada e engraçada. Em seus piores momentos, eu era apresentada a dor e ao medo de perder aquela que era minha maior referência de calor. Eu sentia frio e medo, e algumas vezes, eu me refugiava embaixo de sua cama de hospital. Isso marcou tanto minha vida que ao longo dos anos posteriores, em várias situações de dor, eu me refugiei em algum lugar, com frio, recordando seu calor.

Mas de alguma forma, me apresentando a dor, minha avó marcou minhas escolhas de vida. Nunca tive dúvidas que minhas opções de vida e profissionais foram marcadas pela convivência com sua generosidade, seu calor e a dor de sua doença. Eu não seria o que sou se não estivesse ao lado dela em seus últimos anos de vida.

Este foi um das maiores dádivas - e ensinamentos- que minha mãe me deu. Ela nos exigia que ajudássemos nos cuidados com minha avó. Algumas vezes aquilo que me revoltava. Eu queria passar a tarde na praia mas precisava voltar para a casa a fim de ajudar minha mãe. Mas ela nos ensinava que todos faziam parte da casa, onde minha avó vivia. E ao fim das contas, acho que devo a minha mãe uma mudança de destino. Ter deixado de ser uma menina mimada que achava que podia ter tudo e aprender  os significados das palavras compaixão e compartilhar. E ainda, descobrir que eu podia ser mais forte do que supunha.

Porque se minha avó foi minha maior referência de calor, minha mãe foi minha referência de dor. Quando eu caía, literalmente ou enfrentava algum desafio, era ela quem me dizia: Levanta e anda. Ensinou-me Emicida, quando ainda era pequena. Não houve um só momento difícil da minha vida, em que minha mãe não esteve ao meu lado, nunca doce com a melhor imagem das mães. Mas firme dizendo sempre algo como Levanta e Anda.

Talvez por tudo que aprendi cuidando da minha avó, e da força que minha mãe me inspirava, não foi tão difícil estar com minha mãe quando ela adoeceu. Eu sabia que não podia mais me refugiar com frio. E nem podia. Eu precisava estar a seu lado, cuidando dela, e assegurando-lhe que tudo ficaria bem quando ela partisse. Eu sei que era esta a resposta que ela precisava. Perder uma mãe, especialmente quando ela é sua maior referência de força, devia ser algo proibido. Mas a gente descobre força que não sabe existir dentro da gente. E eu ainda tinha meu pai para cuidar.

Meu pai, minha maior referência de afeto, que me contava histórias para dormir e ia ao meu encontro quando, ainda criança, acordava no meio da noite com medo. Meu pai, minha maior referência de valores, de ética, de cuidado com o outro. Ele está aqui. 90 anos de vida. Anos de vida, sustentando nossa família com seus valores, simbólicos e materiais. Olho para ele e penso o quanto o amo. Me lembro como ele me salvou a cada vez que me levava mamadeira morna na cama para eu me acalmar. Como ele me impediu de cair, antes que eu estatelasse no chão e minha mãe dissesse: levanta e anda. 

Minha dor não é vê-lo partir aos poucos. É não poder fazer nada por ele. Nada. Eu, que um dia acreditei que era forte, me vejo fraca e estilhaçada, sem saber conviver com este pai que se afasta de mim. Não por que está no fim de sua vida mas porque me olha, sabe quem eu sou mas não pode mais me ver. Não pode caminhar ao meu encontro. 

Em um momento em que o mundo ao meu redor, que a situação política e social grita para que meus valores, os valores que meu pai me ensinou, resistam, eu me vejo deslizando num mundo sem cor, em uma imensa impotência. Um voz ecoando dentro de mim: não sei nada, não sou nada, não posso nada. E sequer consigo escutar: então levanta e anda.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Luz canta para nós


Das luzes e lutas: endurecendo sem perder a ternura

Existem várias formas de se ligar ao universo, ou para quem pensa assim: ligar-se à Deus e sua criação. Minha forma de me ligar ao mundo é através da valorização do humano, escutando tudo que dói e brilha em sua existência.

Acho mesmo que ando por aqui nesta terra por conta disso. Para tentar compreender melhor o humanamente possível e desumanamente silenciado, e buscar caminhos para dizer aquilo que muitos sabem mas não tem palavras para dizer. E aquilo que outros tantos se recusam a escutar.

Nestes caminhos, em uma Comuna Popular em Medellin, encontrei Luz Guevara. Sim, este é o nome desta bela senhora, dona de um lindo espanhol, e de um afeto que vi em poucas pessoas. Um afeto tímido mas intenso.

Luz me contou que a luta em Medellin contra a privatização na Saúde é grande. Lá, como aqui, as pessoas adoecem com a dor da vida. Adoecem por causa dos confrontos armados, pela tensão das condições de vida. Lá, como aqui, os serviços de saúde não respondem às demandas dos moradores.

Mas lá, Luz e outras pessoas, vão para praça pública no Centro da cidade, uma vez por semana, fazer uma vigília: às terças feiras, lá estão na vigílias  MARTES da Saúde. Lá fazem circular informações, trocam ideias e conversam com a população e cantam.

Cantam sua angústia, cantam contra o fato de que só contam com uma sistema de proteção - uma tutela (???) - que nada resolve. Cantam por uma atenção que não seja particular, onde não precisem pagar, que seja direito, direito universal.

em meio ao som dos carros que passam  bem meio da divisa entre as Comunas Populares 1 e 3, Luz canta para nós

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sente o drama...


Sobre testemunhos e diálogos, novas formas de participação: dando visibilidade ao que é invisível e constituindo novos caminhos de debate.



Ontem, assistir a audiência pública no Alemão, organizada pelo Juntos pelo Complexo do Alemão, com a presença de moradores, coletivos e instituições do território, e as comissões de Direitos Humanos e Educação da ALERJ, além de vários representantes de outras organizações da sociedade civil, me fez pensar em algumas coisas: _ As audiências públicas se constituem hoje em um dos principais caminhos de publicização de problemas e dramas que atingem a população.

_ As audiências públicas abrem espaço para que questões discutidas de forma setorizada e pontual - em conselhos e outros espaços que se tornam cada vez mais burocráticos e técnicos - sejam debatidas de forma integrada, sem isolar problemas que se relacionam.

_ As audiências públicas são conquistas fundamentais e as comissões que lutam para levá-las a frente, assim como as organizações e coletivos do movimento popular, devem ser valorizadas.

_ Diferentes atores sociais e políticos tem lugares, interesses e compromissos diferentes. Se deputados, ong's, coletivos populares, técnicos e profissionais dos serviços públicos, pesquisadores etc etc fossem a mesma coisa, seria difícil avançar na luta social. Como pesquisadora e professora, eu quero ouvir diferentes espaços de ponto de vista, e ainda que não concorde com muitos, penso que algumas visões são fundamentais para o avanço do debate e, no meu caso, para o avanço de meu trabalho. Escuta e agregar o estranho é algo fundamental.

_ O intenso processo de violência a que somos submetidos, e em particular que as favelas e periferias são submetidas, faz com que os moradores encontrem em um espaço como a audiência pública um caminho para tornar pública sua dor e seus problemas, e isso é uma forma fundamental de ação que deve ser valorizada; TESTEMUNHO É AÇÃO.

_ Os fóruns coletivos de debate, dentre eles a audiência pública, precisam encontrar uma dinâmica que incorpore a necessidade de testemunho como forma de participação e faça revisão das habituais e antigas formas de debate, com seus ordenamentos e encaminhamentos. É preciso aprender a responder às necessidades e dinâmica da luta social. Formatos antigos de reuniões e assembleias populares, não respondem mais aos desafios de nossos tempos, as novas formas de participação e representatividade atuais.

_ Dividir-se em um momento em que é necessário incorporar os diferentes espaços de ponto de vista - que lutam por justiça social, para sermos mais humanos, mais livres e por vidas mais dignas - é aceitar o jogo daqueles que querem controlar as lutas populares, e que hoje mais do que nunca temem os novos formatos de participação popular.

E terminando com o que a Mônica Santos Francisco disse em uma das oficinas de nosso projeto (eu colo nela porque não sou boba!) (Fonte: Oficina em Manguinhos: Impactos do PAC sobre a saúde dos moradores ):

"O desejo de falar, ele é muito grande porque as favelas vivem um processo de silenciamento em todas as situações. Então quando alguém chega no sistema de saúde e grita é porque ele quer ser ouvido, não é porque ele está indo ali para brigar, não é porque ele é mal educado, é porque ele é silenciado o tempo todo, e ele é silenciado na sua dor. Então, é o professor, é o profissional de saúde, todos são silenciados na sua dor. Então, na hora que a gente se encontra, você quer falar. Porque é uma terapia. É o momento em que você expõe, você busca de alguma forma no outro, aquilo que a Marize iniciou dizendo, alguma forma de construir para além daquilo que a gente está vivendo".

(escrito em Maio de 2015)


Em 04 de abril de 2015, moradores do Complexo do Alemão, tendo a frente diversos coletivos da Complexo e contando com o apoio de diferentes grupos da sociedade, saíram as ruas no Movimento Somos Todos Complexo, Paz no Alemão, em protesto contra os assassinatos ocorridos na semana anterior, sendo um deles de um menino de 10 anos ( Fonte: Coletivo Papo Reto )
Em 10 de abril de 2015, seguindo-se ao movimento Somos Todos Complexo, o Movimento Juntos pelo Complexo reunindo vários coletivos do Complexo do Alemão faz reunião com a Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ (Fonte: Coletivo Papo Reto)


Em 04 de maio de 2015, moradores do Complexo do Alemão, tendo a frente o movimento Juntos pelo Complexo, se reúnem na Audiência Pública da Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ, coordenada pelo Deputado Estadual Marcelo Freixo (Fonte: Coletivo Papo Reto)

A Audiência foi realizada no colégio Caic Theóphilo de Souza Pinto, sendo contando também com a participação de  profissionais de escolas da região, bem como diferentes atores da sociedade que acompanham as lutas nas favelas e no Complexo do Alemão (Fonte: Coletivo Papo Reto)


Na Audiência, que contou também com a presença de representantes do comando da PM, destacaram-se diferentes depoimentos de moradores, lideranças do Movimento Juntos pelo Complexo e de professores, a respeito das violações de direitos humanos no Complexo do Alemão (Fonte: Coletivo Papo Reto)

terça-feira, 7 de julho de 2015


...era uma vez o lugar de um nada, onde sonha-se verde


Poderia ser  simplesmente um lugar vazio, onde os motoristas param seus carros, porque eles precisam estacionar em algum lugar. Ou poderia ser o lugar dos cachorros descansarem e fazerem suas mais naturais necessidades porque, como sabemos, cachorros tem também necessidades que não são naturais. Embora nunca vi cachorros pousando soltos ali, porque naquele lugar parece que há sempre alguém para acalentar um cão perdido. Ah, sim, poderia ser o lugar do entulho, ou do lixo, que não são muito naturais. Embora por ali faça um pouco parte da paisagem, apesar de muitos tentarem fazer diferente.

Mas acontece que este nada vai se tornando alguma coisa. Das ideias, das mãos, do entre mãos de alguns vai se tornando um lugar que pode ser um tudo. Ali bem pertinho de uma escada destroço que o PAC deixou no abandono, mostrando que algum dia alguém morou ali e perdeu sua casa. Ali, bem próximo desta escada que levava rumo ao nada mas que Mario Bands, um dos tantos artistas dali,  transformou em obra de arte.... ah, ali, bem pertinho, na Central, vai se desenhando um praça.



Avenida Central, Morro do Alemão, Complexo do Alemão


 Os homens da pá e das picaretas, Instituto Raízes em Movimento
Como acontece com o nada, parece que os rumos ainda não estão bem definidos. Há um projeto. Há muita energia. Algumas tantas mãos. Muito suor e alegria. Muita música. Algumas tantas cervejas, enquanto se discute como ocupar o nada, de acordo com os sonhos. Ali se sonha. Sonha-se com um lugar, sem sombras escuras e gritos de angústia e horror. Sonha-se com um lugar de aconchego, onde se possa simplesmente sentar, trocar ideias, ouvir música, jogar conversa fora e ver a favela passear em toda sua vitalidade. 






Enquanto alguns na calada da noite, tramam, negociam e mudam leis, com mãos que se entrelavam na sujeira. Outros, bem mais fortes, que muitas vezes partem do nada, constroem na clareza da manhã e do espaço público. Ali, de armas em punho – picaretas, pás, mudas de plantas, pneus etc...- se tece um possível amanhã, um mutirão para simplesmente ser feliz. Sonha-se verde neste lugar.  



Dia 18 de julho - Inauguração da Praça Verde, na Avenida Central, em frente ao Raízes em Movimento  




domingo, 5 de julho de 2015

Dos personagens, de suas ações e de como insistem em lhes tirar de cena: uma reflexão sobre os movimentos sociais


O link acima - marcado em laranja- refere-se a um texto escrito em 1995. 20 anos se passaram. Muita coisa mudou. Não cabe dizer o que mudou. Muitas outras coisas não mudaram.
Esforçando-me, como tantos outros, em rever travessias, fazer balanço, ando relendo e contemplando imagens...Achei que valia a pena compartilhar. O texto faz parte da minha dissertação de mestrado "Grotão, Parque Proletário, Vila Cruzeiro e outras moradas: História e Saber nas favelas da Penha", defendida na UFF, sob orientação do saudoso e querido mestre Victor Valla e na companhia de amigos queridos, alguns dos quais ainda fazem parte do meu mundo.




Imagem: Juntos pelo Complexo do Alemão - https://www.facebook.com/juntospelocomplexodoalemao
Imagem: Coletivo Papo Reto - https://www.facebook.com/ColetivoPapoReto?fref=ts



Fonte: Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro - https://www.facebook.com/forumsocialdemanguinhos/timeline





Fonte: Coletivo Papo Reto



sábado, 4 de julho de 2015

Forbidden Coulours


Cores Proibidas

As feridas em suas mãos perecem nunca sarar
Eu achei que tudo o que precisava era acreditar
Aqui estou, a uma vida inteira longe de você?
O sangue de Cristo, ou as batidas do meu coração
Meu amor veste cores proibidas
Minha vida acredita
Anos sem sentido passam
Milhões estão dispostos a dar suas vidas por você
Nada continua a viver?
Aprendendo a lidar com sentimentos acordados em mim
Minhas mãos no solo enterradas dentro de mim mesma
Meu amor veste cores proibidas
Minha vida acredita em você mais uma vez
Eu ando em círculos
Enquanto duvido do próprio chão abaixo de mim
Tentando mostrar fé indiscutível em tudo
Aqui estou, a uma vida inteira longe de você?
O sangue de Cristo, ou uma mudança no coração
Meu amor veste cores proibidas
Minha vida acredita
Meu amor veste cores proibidas
Minha vida acredita em você mais uma vez

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Da vida entre arcos e perguntas sem respostas


....sempre foi assim, um coração meio sintonizado tomando o sangue de outro.

O quanto custou durante tanto tempo ouvir a dor e a impotência na fala de quem você quer bem, uma amiga, um amigo,,alguém como você, que foi "mal vista (o)"  vista pela metade? Alguém que você viu tecer tantos sonhos... O quanto custa você ver o que este alguém não pode ver, porque se diz doente? O quanto custa você ver luta, sensibilidade e doçura, sangue guerreiro em alguém que se vê impotente e insensível? Que não vê sentido na vida.

O quanto custa você se ve neste lugar, desprovido de sentido, sem energia para fazer o que sempre fez, tentar ver além quando a maioria quer ver aquém?

O quanto sentir metade, quando se aposta em ser inteiro? Tentar o além e só te acenarem aquém. O quanto custa você não poder explicar uma só vez aquilo que só consegue compreender. O quanto custa saber que só lhe resta calar quando gostaria de gritar?

O quanto custa enfrentar o saber asséptico, os uniformes disformes, os especialismos, os objetivismos, a lógica burra que cria um abismo entre nós e a paisagem que vislumbramos? O quanto custa deparar-se com um muro onde parece escrito em letras quadradas, desumanas, sem sangue e poesia: "você não pode" ? Um muro que parece nos empurrar para o vazio, querendo nos interditar vida.

O quanto custa lançar a alma no espaço por entre prisioneiros? O quanto custa ser inacabada quando a sua volta há tanto ser acabado? O quanto custa transitar em espiral num mundo em círculo? O quando custa viver num mundo espiral que se quer quadrado, pré modernidade?

Há alguns anos eu pensava ter pistas para tudo isso, pensava respostas.

Hoje, eu apenas respiro para acalmar meu coração.