Sobre testemunhos e diálogos, novas formas de participação: dando visibilidade ao que é invisível e constituindo novos caminhos de debate.
Ontem, assistir a audiência pública no Alemão, organizada pelo Juntos pelo Complexo do Alemão, com a presença de moradores, coletivos e instituições do território, e as comissões de Direitos Humanos e Educação da ALERJ, além de vários representantes de outras organizações da sociedade civil, me fez pensar em algumas coisas: _ As audiências públicas se constituem hoje em um dos principais caminhos de publicização de problemas e dramas que atingem a população.
_ As audiências públicas abrem espaço para que questões discutidas de forma setorizada e pontual - em conselhos e outros espaços que se tornam cada vez mais burocráticos e técnicos - sejam debatidas de forma integrada, sem isolar problemas que se relacionam.
_ As audiências públicas são conquistas fundamentais e as comissões que lutam para levá-las a frente, assim como as organizações e coletivos do movimento popular, devem ser valorizadas.
_ Diferentes atores sociais e políticos tem lugares, interesses e compromissos diferentes. Se deputados, ong's, coletivos populares, técnicos e profissionais dos serviços públicos, pesquisadores etc etc fossem a mesma coisa, seria difícil avançar na luta social. Como pesquisadora e professora, eu quero ouvir diferentes espaços de ponto de vista, e ainda que não concorde com muitos, penso que algumas visões são fundamentais para o avanço do debate e, no meu caso, para o avanço de meu trabalho. Escuta e agregar o estranho é algo fundamental.
_ O intenso processo de violência a que somos submetidos, e em particular que as favelas e periferias são submetidas, faz com que os moradores encontrem em um espaço como a audiência pública um caminho para tornar pública sua dor e seus problemas, e isso é uma forma fundamental de ação que deve ser valorizada; TESTEMUNHO É AÇÃO.
_ Os fóruns coletivos de debate, dentre eles a audiência pública, precisam encontrar uma dinâmica que incorpore a necessidade de testemunho como forma de participação e faça revisão das habituais e antigas formas de debate, com seus ordenamentos e encaminhamentos. É preciso aprender a responder às necessidades e dinâmica da luta social. Formatos antigos de reuniões e assembleias populares, não respondem mais aos desafios de nossos tempos, as novas formas de participação e representatividade atuais.
_ Dividir-se em um momento em que é necessário incorporar os diferentes espaços de ponto de vista - que lutam por justiça social, para sermos mais humanos, mais livres e por vidas mais dignas - é aceitar o jogo daqueles que querem controlar as lutas populares, e que hoje mais do que nunca temem os novos formatos de participação popular.
E terminando com o que a Mônica Santos Francisco disse em uma das oficinas de nosso projeto (eu colo nela porque não sou boba!) (Fonte: Oficina em Manguinhos: Impactos do PAC sobre a saúde dos moradores ):
"O desejo de falar, ele é muito grande porque as favelas vivem um processo de silenciamento em todas as situações. Então quando alguém chega no sistema de saúde e grita é porque ele quer ser ouvido, não é porque ele está indo ali para brigar, não é porque ele é mal educado, é porque ele é silenciado o tempo todo, e ele é silenciado na sua dor. Então, é o professor, é o profissional de saúde, todos são silenciados na sua dor. Então, na hora que a gente se encontra, você quer falar. Porque é uma terapia. É o momento em que você expõe, você busca de alguma forma no outro, aquilo que a Marize iniciou dizendo, alguma forma de construir para além daquilo que a gente está vivendo".
(escrito em Maio de 2015)
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| Em 04 de abril de 2015, moradores do Complexo do Alemão, tendo a frente diversos coletivos da Complexo e contando com o apoio de diferentes grupos da sociedade, saíram as ruas no Movimento Somos Todos Complexo, Paz no Alemão, em protesto contra os assassinatos ocorridos na semana anterior, sendo um deles de um menino de 10 anos ( Fonte: Coletivo Papo Reto ) |






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