quinta-feira, 2 de julho de 2015

De chegadas e partidas


"Eu cheguei a seguinte conclusão: a terra é do latifundiário, o mar é da marinha, o céu é da aeronáutica e para as favelados só sobrou o inferno", foi bem assim que falou o morador de uma favela da Penha, subúrbio do município do Rio de Janeiro. "Inferno", lugar de padecimento. Lugar da "sobra".

Refletir sobre chegadas e partidas é buscar o que nos move. É buscar fios de memórias, ressignificá-los no presente e reencontrar novas direções. Sobre isso, posso dizer que sempre quis saber mais e mais do "inferno". Conhecer a sobra. Explicar a sobra. Os sobrantes.

Foi assim que cheguei pela primeira vez numa favela do Rio de Janeiro: a Chácara do Céu. Atravessando uma fronteira. Estranha no lugar. Imagens na cabeça. Buscando conhecimentos que pudessem explicar estas imagens.

A Marginalidade em Questão: Conflito Social, Condições de Vida e Cotidiano na Favela (1992) nasceu daí. Da busca incessante de explicações para a existência daquele lugar, descrito pela moradora. "Lugar esquecido por Deus", disse D. Sebastiana. Explicações que me fizessem entender também o dia a dia daqueles que moravam ali. "Dias de muita luta", como falou outra moradora que nem lembro o nome.

O problema é que houve incidentes no meio da feitura daquele trabalho. Foi quando Dona Sebastiana me disse bem assim: "Minha vida está boa do jeito que está". Surpresa não fiquei não. Já tinha ouvido antes coisas parecidas e minha formação acadêmica me dava uma série de conceitos prá entender aquilo: alienação, falta de consciência histórica e de classe. Mas fiquei sim, foi desconfiada. A autoridade nos gestos, no tom e mesmo no conteúdo da afirmação de Sebastiana e outros tantos moradores, confrontada com a evidente precariedade de suas condições de vida, levou-me a desconfiar que não a estava entendendo, percebendo alguma coisa em sua fala e que, portanto, podia haver algo "errado" comigo, com minha formação acadêmica e profissional. Foi isso que concluí.

E aí comecei a perceber que queria mais. Mais do que explicar. Queria compreender a "sobra". A vida na "sobra". Saber se era mesmo "inferno". E compreender também suas relações com aquilo que não é "sobra". Com aquilo que é domínio na cidade. E que é domínio nas relações que nela se tecem. Queria compreender as relações da "sobra" com aqueles que vão ao "inferno", em busca de alguma coisa, com algum interesse, assim como eu estava fazendo.


Ponto de chegada, começo de outra partida. A partida que fez nascer meu projeto de pesquisa no mestrado, a respeito da memória histórica nas favelas: Reconstruindo a trama por caminhos, atalhos e pistas (1994).



17 de junho de 2003 - Blog entrelugares



 Escada, destroço da remoção, antes
e depois, transformada em arte por Mario Bands
  Avenida Central- Morro do Alemão - 2013







Escada - Imagem: Arley Macedo
Rocinha, 2013

Nenhum comentário:

Postar um comentário