De chegadas e partidas
"Eu cheguei a seguinte conclusão: a terra é do
latifundiário, o mar é da marinha, o céu é da aeronáutica e para as favelados
só sobrou o inferno", foi bem assim que falou o morador de uma favela da
Penha, subúrbio do município do Rio de Janeiro. "Inferno", lugar de
padecimento. Lugar da "sobra".
Refletir sobre chegadas e partidas é buscar o que nos move.
É buscar fios de memórias, ressignificá-los no presente e reencontrar novas
direções. Sobre isso, posso dizer que sempre quis saber mais e mais do "inferno". Conhecer a sobra. Explicar a sobra. Os sobrantes.
Foi assim que cheguei pela primeira vez numa favela do Rio
de Janeiro: a Chácara do Céu. Atravessando uma fronteira. Estranha no lugar.
Imagens na cabeça. Buscando conhecimentos que pudessem explicar estas imagens.
A Marginalidade em Questão: Conflito Social, Condições de
Vida e Cotidiano na Favela (1992) nasceu daí. Da busca incessante de
explicações para a existência daquele lugar, descrito pela moradora. "Lugar
esquecido por Deus", disse D. Sebastiana. Explicações que me fizessem entender
também o dia a dia daqueles que moravam ali. "Dias de muita luta", como falou
outra moradora que nem lembro o nome.
O problema é que houve incidentes no meio da feitura daquele
trabalho. Foi quando Dona Sebastiana me disse bem assim: "Minha vida está boa do
jeito que está". Surpresa não fiquei não. Já tinha ouvido antes coisas
parecidas e minha formação acadêmica me dava uma série de conceitos prá
entender aquilo: alienação, falta de consciência histórica e de classe. Mas
fiquei sim, foi desconfiada. A autoridade nos gestos, no tom e mesmo no
conteúdo da afirmação de Sebastiana e outros tantos moradores, confrontada com
a evidente precariedade de suas condições de vida, levou-me a desconfiar que
não a estava entendendo, percebendo alguma coisa em sua fala e que, portanto,
podia haver algo "errado" comigo, com minha formação acadêmica e profissional.
Foi isso que concluí.
E aí comecei a perceber que queria mais. Mais do que
explicar. Queria compreender a "sobra". A vida na "sobra".
Saber se era mesmo "inferno". E compreender também suas relações com
aquilo que não é "sobra". Com aquilo que é domínio na cidade. E que é
domínio nas relações que nela se tecem. Queria compreender as relações da
"sobra" com aqueles que vão ao "inferno", em busca de
alguma coisa, com algum interesse, assim como eu estava fazendo.
Ponto de chegada, começo de outra partida. A partida que fez
nascer meu projeto de pesquisa no mestrado, a respeito da memória histórica nas
favelas: Reconstruindo a trama por caminhos, atalhos e pistas (1994).
17 de junho de 2003 - Blog entrelugares
Escada, destroço da remoção, antes
e depois, transformada em arte por Mario Bands
Avenida Central- Morro do Alemão - 2013
Escada - Imagem: Arley Macedo
Rocinha, 2013



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