quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sons da carne, sons da alma

...decifro os sons...eles me dizem que é diferente de tudo que me fizeram acreditar...

eu não sei bem dizer o que é....podia dizer ferida, podia falar trauma; mas tudo isso não dá conta de dizer daquilo que não é fixo, que não tem casca, não tem limite e lugar definido, nem uma origem que explique, e muitas vezes nem dói, nem sinal de vida dá...


...ficam abrigadas bem lá no fundo, num lugar onde nem a gente alcança com um simples ato de vontade; fixam-se em nós mas jamais do mesmo tamanho; crescem devagarzinho, tomando espaços cada vez maiores, comprometendo pedaços imensos de nossas vidas, freqüentemente limitando, nosso tamanho, nossa potência, nossa existência; nos transformam em sombras; ainda que bem feitas e acabadas, sombras que se alojam num original que não encontra espaço prá crescer e precisa vicejar.


quando espalham-se transmutam-se naquilo que vai sendo chamado carências, vazios, traumas, coisas mal resolvidas... Mas não....custei a descobrir... não são coisas que faltam; não são coisas "do mal"; são apenas emoções que não tiveram o cuidado merecido; às vezes, porque lhe demos proporção demais; em outros casos, demos atenção de menos; quase sempre, recusamo-nos a compartilhá-las com alguém, acreditando que elas só habitam em nós. Às vezes, é vergonha. Às vezes, é medo. Quase sempre é recusa de rememorar acreditando que ao fazê-lo iremos vivê-las novamente...


...são emoções que habitam em nós como resíduos, uma espécie de segredo, emoções silenciadas, meio que oprimidas, que nunca puderam ser tratadas com cuidado e liberdade. Aquilo que não é, não foi ou ficou a deriva... Porque não quisemos. Porque não pudemos. Porque não deixaram. Porque não era o tempo possível.

 

algumas vezes, alguém ou algo as atinge, involuntariamente. Uma palavra, uma cena de filme, uma música, uma situação que tem o tom de repetição....Uma espécie de tortura... As emoções se traem e as áreas silenciadas falam. Ouvimos o lamento, o choro, os gritos...Traduzimos tudo em dor, ferida e as cobrimos com o manto sombrio, do medo. ... não compreendemos seu som, o grito da vida, um grito pelo cuidado merecido, por liberdade, por mutação...
 

olhos e ouvidos fechados ao possível...o Possível? Palpável? Tangível?

às vezes, algo ou alguém as alcança, involuntariamente, com carinho... Um brilho de sol, um artefato de vida, um mensageiro dos deuses, uma situação que tem o tom da transformação... Uma espécie de cura...O que era silêncio sombrio parece ir se transformando...Sentimos a melodia suave que acorda os pedaços inertes atingidos pela sombra. Podemos ouvir o grito da vida. Começamos a ficar do nosso tamanho... Iluminamos os sons e deciframos aquilo onde um dia vimos apenas gritos, lamentos, choros, silêncios sufocados. Reconhecemos sua música. Desejo. Liberdade! É disso que fala. É esta sua versão. 


setembro de 2004 

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