Este texto foi inscrito, depois de uma conversa inspiradora com minha amiga Karina Lerner, lá pelos idos de 2003. Ainda penso nele, ainda penso em seus sentidos.
E temos desejos. Transbordamos de desejos. E não de carências. De comer o que curtimos, saborear uma bebida que gostamos, conversar com as pessoas que nos fazem bem, fazer sexo gostoso, "se embalar na rede matando a sede na saliva...", dançar, cantar, urrar, falar besteiras, "blás blás blás" e "ti ti tis"e fazer o que nos dá prazer, e reforça nossa presença no mundo, sem nos pasteurizar por aí.
Precisamos de tudo isso prá viver a vida que nos é de direito. E não há uma hierarquia nestas coisas, tipo primeiro as naturais, depois as sociais e, por fim, os desejos.
O desejo não nos coloca no lugar da vítima, que deve ser salva por algo de fora, seja o governo ou uma cesta básica assistencial. Na vida pessoal, um super amigo ou na versão mais radical, um super homem, uma super mulher. O desejo não é produzido num outro lugar e entulhado em nós. É criado em nós enquanto nos relacionamos, e envolve escolhas, ainda que muitas vezes negadas, ou mal enfrentadas. O desejo é afirmativo de vida. Não fala de falta, nem de vazios, nem de buracos, nem incompletudes. Fala de coisas humanas, com as quais podemos tornar nossa vida muito melhor, e nos sentirmos menos frágeis, vulneráveis, aquém de tudo. E o desejo cutuca aquilo que de melhor habita em nós e nos valoriza: nossas potências, nosso diferencial em meio aquela coisa toda igual que aparece nas propagandas e que não vamos alcançar nunca. Cutuca o que é nosso, e que é bom demais porque é real, e não faz de conta, embora a gente nem sempre veja. É perverso que a gente veja a beleza da Giselle coisinha e não veja o que há de belo escondido em nosso corpo. Que a gente olhe o sucesso do outro e não se dê conta da diferença que fazemos prá tanta gente em nossas relações de trabalho. E por aí vai...
O anúncio recorrente da carência coloca panos quentes naquilo que borbulha e vibra em nós, nos empurrando prá ir além. Não é a toa que adoro aquela música dos Titãs. Nos tira do lugar em que tentam nos colocar, de que não precisamos de tudo que temos direito prá viver. E afirma a vida, nos empurrando prá ir construí-la e não esperar que alguém, ou o destino, faça isso por você. Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?
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