segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Transbordes....Viagens...Conspirações...ou seriam conspirAÇÕES?



 
 
Este texto foi inscrito, depois de uma conversa inspiradora com minha amiga Karina Lerner, lá pelos idos de 2003. Ainda penso nele, ainda penso em seus sentidos.


Carente sim. De vitaminas, ferro e sais de minerais. Fome e desejo??? São outros transbordes, que quem sabe é meu corpo e  nós temos mesmo é necessidades, naturais. E sociais, produzidas a partir das mudanças que os tempos vão trazendo prá nossas vidas, e mais ou menos limitadas de acordo com o lugar que ocupamos na sociedade. Naturais de comer e beber, fazer sexo, ter afeto, fazer coisas no banheiro. Comer bem, trabalhar, ter saúde, estudar, ter um som, computador, acesso a internet, celular etc e todas as maravilhas que vão facilitando nossas vidas, abrindo nossos mundos. Algumas vão se tornando radicais porque, em meio aos conflitos e diferenças da sociedade, vão nos fazendo brigar por direitos que nos são negados.

E temos desejos. Transbordamos de desejos. E não de carências. De comer o que curtimos, saborear uma bebida que gostamos, conversar com as pessoas que nos fazem bem, fazer sexo gostoso, "se embalar na rede matando a sede na saliva...", dançar, cantar, urrar, falar besteiras, "blás blás blás" e "ti ti tis"e fazer o que nos dá prazer, e reforça nossa presença no mundo, sem nos pasteurizar por aí.

Precisamos de tudo isso prá viver a vida que nos é de direito. E não há uma hierarquia nestas coisas, tipo primeiro as naturais, depois as sociais e, por fim, os desejos.

O desejo não nos coloca no lugar da vítima, que deve ser salva por algo de fora, seja o governo ou uma cesta básica assistencial. Na vida pessoal, um super amigo ou na versão mais radical, um super homem, uma super mulher. O desejo não é produzido num outro lugar e entulhado em nós. É criado em nós enquanto nos relacionamos, e envolve escolhas, ainda que muitas vezes negadas, ou mal enfrentadas. O desejo é afirmativo de vida. Não fala de falta, nem de vazios, nem de buracos, nem incompletudes. Fala de coisas humanas, com as quais podemos tornar nossa vida muito melhor, e nos sentirmos menos frágeis, vulneráveis, aquém de tudo. E o desejo cutuca aquilo que de melhor habita em nós e nos valoriza: nossas potências, nosso diferencial em meio aquela coisa toda igual que aparece nas propagandas e que não vamos alcançar nunca. Cutuca o que é nosso, e que é bom demais porque é real, e não faz de conta, embora a gente nem sempre veja. É perverso que a gente veja a beleza da Giselle coisinha e não veja o que há de belo escondido em nosso corpo. Que a gente olhe o sucesso do outro e não se dê conta da diferença que fazemos prá tanta gente em nossas relações de trabalho. E por aí vai...

O anúncio recorrente da carência coloca panos quentes naquilo que borbulha e vibra em nós, nos empurrando prá ir além. Não é a toa que adoro aquela música dos Titãs. Nos tira do lugar em que tentam nos colocar, de que não precisamos de tudo que temos direito prá viver. E afirma a vida, nos empurrando prá ir construí-la e não esperar que alguém, ou o destino, faça isso por você. Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?

Nenhum comentário:

Postar um comentário