A águia gosta de pairar nas alturas, acima do mundo, não para ver as pessoas de cima, mas para estimulá-las a olhar para o alto
( Elizabeth Kubler Ross)
Os Antigos, quando queriam prognosticar o futuro, sacrificavam os animais, consultavam-lhes as entranhas, e conforme o que viam nelas, assim prognosticavam. Não consultavam a cabeça, que é o assento do entendimento, se não as entranhas, que é o lugar do amor; porque não prognostica melhor quem entende, senão quem mais ama. (Padre Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga)
Ali, comecei a perceber ali... há mais de dez anos. Ao meu lado, algumas mulheres ostentando seus ventres, pequenos, grandes ou imensos. A minha frente, só imagens de ultras de fetos, e fotos de nenens e gestantes. E eu ali, num laboratório, fazendo pela primeira vez ultrassonografia de um peito que, segundo minha médica, tornava-se mais velho do que eu. Não esteticamente mas fisiologicamente. Lembrava Woody Allen: As palavras mais belas da língua não são "eu te amo", são "é benigno". Nada tão grave mas eu sou dramática. Ou tragicômica. E só pensava a merda que fazia com minha vida. Merda de mulher! Me dei conta de que deixara meus sonhos prá trás e destruía meu futuro. Algum tempo depois, uma narrativa sobre a águia e seu processo de renascimento me caiu nas mãos. Virou minha "agenda de vida".
É bom quando a gente encontra "águias" em nossas vidas e se cerca delas. Encontrei algumas que, mais do que me estimularem a olhar para o alto, me ajudaram a olhar prá dentro. Acho que o vôo mais alto que dei em minha vida foi começar a olhar prá dentro. "Consultei minhas entranhas". Mapeei minha geografia. Cheia de medo mas sem concessões. Assustada, vi minha cara mais feia. Reconheci pedaços de gente aqui dentro. Pedaços de puro sol. Pedaços de lodo, com data de validade vencida. E pedaços perdidos de tempo. Pedaços ainda vibrantes de energia. E pedaços sem sentido. E enfim comecei a descobrir, "minha cara mais minha". Não acho que possa prognosticar meu futuro. Mas plantei sementes e me sinto grávida de vida, cheia de raízes e vasos comunicantes que dão sentido e intensidade aos meus desejos.
E com isso eu foi concluindo que realmente a gente precisa das duas dimensões. De um tanto de águia, de olhar além, no horizonte, entre ousadias e sonhos que nos movem. E outro tanto de raízes, no círculo da convivência, entre referências que nos guiam e ajudam a dar sentido aos sonhos. No diálogo entre estes dois lados talvez esteja a chave da libertação.
( Elizabeth Kubler Ross)
Os Antigos, quando queriam prognosticar o futuro, sacrificavam os animais, consultavam-lhes as entranhas, e conforme o que viam nelas, assim prognosticavam. Não consultavam a cabeça, que é o assento do entendimento, se não as entranhas, que é o lugar do amor; porque não prognostica melhor quem entende, senão quem mais ama. (Padre Antônio Vieira, Sermão da Terceira Dominga)
Ali, comecei a perceber ali... há mais de dez anos. Ao meu lado, algumas mulheres ostentando seus ventres, pequenos, grandes ou imensos. A minha frente, só imagens de ultras de fetos, e fotos de nenens e gestantes. E eu ali, num laboratório, fazendo pela primeira vez ultrassonografia de um peito que, segundo minha médica, tornava-se mais velho do que eu. Não esteticamente mas fisiologicamente. Lembrava Woody Allen: As palavras mais belas da língua não são "eu te amo", são "é benigno". Nada tão grave mas eu sou dramática. Ou tragicômica. E só pensava a merda que fazia com minha vida. Merda de mulher! Me dei conta de que deixara meus sonhos prá trás e destruía meu futuro. Algum tempo depois, uma narrativa sobre a águia e seu processo de renascimento me caiu nas mãos. Virou minha "agenda de vida".
É bom quando a gente encontra "águias" em nossas vidas e se cerca delas. Encontrei algumas que, mais do que me estimularem a olhar para o alto, me ajudaram a olhar prá dentro. Acho que o vôo mais alto que dei em minha vida foi começar a olhar prá dentro. "Consultei minhas entranhas". Mapeei minha geografia. Cheia de medo mas sem concessões. Assustada, vi minha cara mais feia. Reconheci pedaços de gente aqui dentro. Pedaços de puro sol. Pedaços de lodo, com data de validade vencida. E pedaços perdidos de tempo. Pedaços ainda vibrantes de energia. E pedaços sem sentido. E enfim comecei a descobrir, "minha cara mais minha". Não acho que possa prognosticar meu futuro. Mas plantei sementes e me sinto grávida de vida, cheia de raízes e vasos comunicantes que dão sentido e intensidade aos meus desejos.
E com isso eu foi concluindo que realmente a gente precisa das duas dimensões. De um tanto de águia, de olhar além, no horizonte, entre ousadias e sonhos que nos movem. E outro tanto de raízes, no círculo da convivência, entre referências que nos guiam e ajudam a dar sentido aos sonhos. No diálogo entre estes dois lados talvez esteja a chave da libertação.
(2003)
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