Imenso...como deve ser um céu branco escancarado...para receber as cores do universo. Meio épico, cheio de quadros. Coisa que entorta, entorna. E está sempre a tornar-se. Foi bem o que pensei quando li pela primeira vez as poesias destes dois que conjugaram seus verbos sem mapas, sem roteiros definidos. De forma um tanto anárquica, sem medo de trazer ao público os verbos desregrados. Talvez porque saibam que o universo é mesmo inacabado. Ou porque se deram conta de as coisas que entornam e explodem precisam ser lançadas ao mundo, para que possam tornar-se...
Confesso, aqui falo como aprendiz. Aprendiz de uma poesia, que é mais do que verbo, é conjugação de verbos para falar das pequenas coisas imensas da vida.
Verbo impreciso. Sabe de dó. Sabe sentido. Não sabe de cor. Sabe de cor, de ação. Coisa do verbo com fome. Com precisão de vida. Verbo contemporâneo, devorador das coisas da cidade, do país, do mundo, em diálogo com verbos alheios. Verbo sentido, lançado em céu branco e dando cor à vastidão do universo a dois. Verbo carícia, denunciando a imensidão da gente, homens e mulheres, meninos e meninas incertos e precisos. Verbo humano, querendo deslocar o tempo, ora urgente, ora paciente.
Mergulhando no céu branco, a gente vai percebendo...Vejam só...as cores vão aparecendo em tons mais que multi. Lá vêm eles, tons que desmancham a vida em binóculo. Cheiram, olham, fazem vibrar, tocam, molham...fundem-se, nos atravessam, nos entornam. Tons...abrigados em palavras que falam de tudo que é intensidade na gente.
Mergulhando no céu branco, a gente se dá conta do quanto ele pode ser imenso, quando arregaçado e pintado por nós. No colorido céu branco destes poetas, há um pouco de tudo que habita em cada um de nós e no entre nós. Às vezes, sombra de quem tem medo. Ou de quem vive em vazios. Ou de quem tem dor. Dor de desejo. Outras vezes, TNT, daqueles que só explode nas vidas que se enlaçam em nós. Outras tantas, sabor de fruta suculenta que a gente colhe no pé e se esparrama a dois prá comer. Mas aprendiz que sou, sei que há mais ....porque quem colore é sempre o leitor, amante - aprendiz de poesia que, por definição, como diz Manoel de Barros, “ é voar fora da asa”. Roubando novamente as palavras do poeta, poesia que responde ao coração das coisas, que “não querem ser mais vistas por pessoas razoáveis: desejam ser olhadas de azul”.
E os poetas amantes apostam na ousadia de arregaçar a vida e reinventar o eu, os nós e o mundo. O segredo? Simplesmente, olham de azul.
Marize Cunha, a madrinha caipira
(prefácio ao livro Das Cores de um Céu Branco de Karina Lerner e Ronaldo Januário, janeiro de 2005)
Você também tem que ser olhada de azul...
ResponderExcluirEntre flores e estrelas!
Belíssimo texto!