Viagens: de sapos e do amor
Em minha infância, acreditava em transformação. Com o tempo, fui
perdendo a espontaneidade do apostar e minha crença foi para algum lugar
inalcançavel. Mas acho que sempre acreditei em transformação. Ainda que
em minha própria vida não tenha provas inequívocas, meu ser, em corpo e
alma, acredita. E conforme o tempo vai passando, vou me convencendo que
há coisas que apenas são. São imponderáveis. Não se explicam. E faz
parte da nossa abusada vaidade humana querer explicar o que só se pode
acolher com as "entranhas". Esta pode ser nossa tragédia querer
responder questões que não tem resposta e que são apenas prá serem
vividas
O texto aí embaixo é uma história taoísta que descobri há algum
tempo. Junto da história, fiz um resumo da interpretação dada pelo autor
que fez a coletânea das histórias do mestre zen Paw Nokoko. Não
se sabe ao certo se este mestre existiu ou não. Dizem que viveu por
volta do fim do século VIII e tinha um único discípulo: Boundha. As histórias de Paw Nokoko tem a marca da irreverência, joga com as palavras e vai na contramão do convencionalismo.
Paw Nokoko fala sobre o amor
Boundha estava sentado à margem do lago do PEI do (significa: ¿o
que vem das entranhas¿) quando um sapo, horrivelmente feio, pulou no seu
colo e foi logo dizendo: Beije-me que me transformarei numa linda
princesa¿. Boundha olhou demoradamente para o sapo, sua pele viscosa,
cheia de manchas amarelas, a enorme boca, os olhos esbugalhados...Seu
estômago doeu. Vacilantemente, mas cheio de esperanças, beijou-º O sapo
continuou sapo. Boundha foi correndo falar com Paw Nokoko.
_ Mestre, por que não houve a transformação?
_ Porque você beijou com asco.
Só o amor transforma. Amor significa total aceitação. Nenhum julgamento.
O amor só é possível a partir do SER, da não-mente.
O amor é o único milagre possível, a mais autêntica alquimia: transforma o mundano no divino, o Silêncio na Divina Melodia.
O mistério do amor reside no fato de que é orgásmico encontro da
vida e da morte. E a tragédia do amor é que você pode perdê-lo, se não
fizer algo conscientemente.
Para atingi-lo há quatro degraus:
1. Estar no aqui-agora. O amor só é possível no presente. Passado e futuro são viagens do Pensar. O Pensar mata as emoções.
2. Aprender a transformar o veneno em mel. Alguns conseguem
amar, mas o amor deles está contaminado pelo ciúme, raiva,
possessividade. Todos frutos envenenados da mente. Se o veneno se
mistura com o amor, vive-se no inferno, a loucura.
A transformação acontece só pelo observar. Não ser a favor nem
contra. Não julgar. Unicamente, olhar a emoção sem nada fazer. Esperar
pacientemente, quieto e indiferente. A emoção segue seu curso natural
até o máximo, quando há a transformação.
3. Compartilhar. Toda emoção é um movimento da energia dentro
de nós. Mover-se é seu atributo. Mas atenção! Só compartilhe a emoção
positiva: a alegria, o êxtase, a celebração, o amor. As emoções
negativas devem ser transformadas em mel. Não espalhe sua miséria pelo
mundo.
4. Seja nada. Amor e ego não podem existir juntos. Com o ego
você é muito. Com o amor você deixa de existir e só o amor existe. Este é
o verdadeiro estado de humildade. O amor destrói o ego completamente,
transformando-o num bambu oco, numa flauta. Então a Divina Melodia pode
acontecer. Sendo NADA você atinge o TODO.
( Prashanto, O Dragão com asas de borboleta e outras histórias zen-taoístas)
(Dezembro de 2003, nos tempos de transformação do veneno)

Também sou dragão e vivo borboletando por aqui.
ResponderExcluirMas, se o sapo for feio, também não beijo... rs!
Flores...
Edson, sou dragão, pelo menos no horóscopo chinês. Uma borboleta sem asas, pelo menos por ora. Ando desconfiando da feiura do sapo rs
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