Eu tentei....E ainda tento...E quero me esforçar prá que autonomia e liberdade alcancem seu significado mais radical. Quero mais ser do que ter. Não quero ter pai e mãe, quero ser filha, vivendo o prazer de ser cuidada e cuidar, prá melhor viver. Não quero ter um rol de amizades ilustrando minha agenda, quero ser mais uma em várias redes de trocas e construções. Não quero ter um homem e um marido. Quero ser mulher e companheira, compartilhando emoções e sensações, construindo projetos. Não quero ter discípulos, ou educandos, quero ser um pedaço de caminho no percurso daqueles para quem trabalho. Um pedaço de caminho que os ajude na autonomia e na liberdade. Querendo ser, esperando que o outro seja.
Tão difícil... Construções sempre são plurais, envolve um eu e o outro. Eu e outro que confundem cuidado com superproteção. Partidas com abandonos, retiradas com desprezos. Eu e outro que não compreendem silêncios ou que reclamam atenção. Eu e outro que buscam controle. Eu e outro que esperam poder...
E na vida pessoal, pelo menos prá mim, sempre foi mais difícil. Talvez porque autonomia e respeito tenham sido limitados por inseguranças e controles. Talvez porque o outro lado da liberdade se chame medo. Talvez porque seja o reino onde os afetos fazem a festa e plantam as dores. Mas quem disse que é fácil? Ainda mais quando se sabe que há perguntas que possivelmente nunca serão respondidas.
Mas fiquei pensando...em meu trabalho com quem andei tão de mal, onde talvez tenha achado algumas pistas e outro dia andei refletindo sobre isso. Meio confuso mas acho que porque saiu meio no tranco...
Nunca foi fácil. Não, nunca foi. Desde criança. Via diferenças. Não via apenas diversidades. Via por detrás das cores, sons, gestos, jeitos e trejeitos múltiplos, as diferenças. E não compreendia muito bem porque o diverso era diferente. Talvez não fosse fácil porque me sentia diferente. Não falava quando éramos convocados a falar, responder ao professor. E falava no momento em que todos emudeciam em sala de aula. Na hora do faz de conta do debate em que todos deviam concordar com as idéias trazidas prá o debate, eu queria debater. Talvez não fosse fácil porque fazia muitas perguntas. Andava atrás de perguntas que me fizessem compreender o mundo das coisas que via a minha volta.
Logo, percebi que por detrás do diverso e do diferença, havia o desigual. Não era fácil. Havia um mundo de interrogações, ressoando em cada esquina da minha vida, que me faziam querer compreender: o mundo, pessoas, visões, atitudes, e eu dentro de todo este universo. Talvez por isso tenha ido fazer faculdade de história. Um dos caminhos de resposta. Queria entender porque as coisas se fizeram assim e não de outro modo.
Fui encontrando muitas respostas. A principal delas: eu não podia apenas obter respostas; elas nunca vinham prontas; precisava construí-las. Não era fácil. Era mais do que ficar dentro de uma sala, cercada de um monte de documentos buscando respostas. Como falar do mundo que nos rodeia e nos constrói, sem falar com ele?
Talvez por isso, tenha ido buscar outros percursos. Dando aulas em escolas públicas, e principalmente, trabalhando junto a projetos sociais nas favelas do Rio de Janeiro, ia tentando encontrar junto respostas junto com as pessoas. De quebra, procurava ajudá-las a construir saídas para suas vidas. Em nenhum momento, deixei de ver cores, sons, falas, jeitos e trejeitos múltiplos. Mas já sabendo que eles falavam de desigualdades, procurei compreender com as pessoas as razões daquilo que parecia diverso, mas que na maioria das vezes era desigual.
Penso que ajudei a criar alguns caminhos para que elas pudessem construir suas respostas e suas saídas. Construção compartilhada de autonomia, é o nome disso. É quando a gente se coloca diante do outro, não como aquele que diz O CAMINHO mas que constrói junto ele, numa relação de troca e respeito. Como diz uma grande amiga, que encontrei por aí, é quando a gente ajuda o outro a falar aquilo que ele sabe mas que não tem palavras prá dizer. E desta forma, juntos, revemos esquemas de pensamento já estabelecidos, abrimos fronteiras, criamos e construímos juntos nossa autonomia. Celebramos. Celebrar, em festa, faz parte do caminho. Momento de prazer, de se reconhecer e olhar um nos olhos do outro percebendo as mudanças realizadas no caminho.
E criamos novos atalhos que levam a outros paradas, até mesmo mundos, que quase sempre implicam separações. E saber partir faz parte do caminho. Liberdade é o nome disso. É quando a gente sabe o momento de partir, na certeza que o outro não só pode voar sozinho mas também o fará bem melhor sem nossa presença. É o momento que o outro já sabe que partida não significa abandono, e que guarda com ele todo o aprendizado da troca. Enfim, é a hora da gente voar, levando aquilo que aprendemos no caminho.
E aí outras perguntas vêm. Algumas, fui descobrindo, não há respostas. Para outras, precisamos buscar novos caminhos, novos parceiros. Mas há sempre algo que se repete em tudo disso: respeito, autonomia e liberdade, sempre no plural.
Não nunca foi fácil. Com certeza, sempre foi contramão. Na contramão de tudo que era esperado, do que aprendera, do que me diziam. Mas certamente, tornou-se um pouco mais fácil quando descobri que pode ser uma contramão coletiva, que dar respostas a vida e construir liberdade é algo que só se pode fazer em diálogo com o outro, que nos diz alguma coisa.
2003
Marize!!!
ResponderExcluirQue texto impressionantemente belo!
Por que é que eu ainda não o havia lido? -- agora me pergunto...
Escreva mais, escreva mais!
Flores e estrelas!
Edson, foi bom ver seu comentário porque me fez reler, algo que escrevi há alguns anos e que faz muito sentido para mim, talvez o núcleo radical de minha vida, que algumas vezes esqueço. este texto traduz boa parte da meu tecido e tb da minha utopia. um memorial, obrigada, muitos abs!
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