Há coisas que me fazem sangrar. Elas tomam forma nas notícias de jornais, em atitudes de pessoas que me cercam, em coisas que vejo pelo mundo, em minha vida, na minha vida cruzando com vidas outras.
Elas andam em círculos fechados. Não olham pra o lado. Não olham pra frente. Não editam memórias. Não visualizam horizontes. Vivem com medo. Vivem do medo. De criar medo. Produzem enredos solitários, vidas em ilhas. Anunciam bandidos e vítimas a cada dia. Desumanizam. Nos roubam potência, querendo nos privar de forças, de horizontes.
É o silêncio que consente. É o vazio que fere. É a palavra que quer cortar. É uma maneira de dizer sim quando já é hora de gritar CHEGA. De lamentar aprisionando quando se faz urgente combater sem prisões. São as armas assassinas. Que engolem vidas. Às vezes em intensa velocidade, às vezes aos poucos.
São armas de guerra, mas que negam conflitos, sem encara-los. Jamais fazem vibrar a vida em infinito porque desconhecem as fronteiras, desconhecem o infinito. O infinito capaz de ver o outro. O outro que está em cada canto do mundo. O outro ao nosso lado. O outro no canto de nós.
São armas de guerra que produzem a vida em drama, sem lançar sementes que permitem arrebentar os nós que nos sufocam e nos engolem. São as armas no mundo político. São as armas no mundo de trabalho. São as armas em nosso universo doméstico. Armas que são mais perigosas quando invisíveis.
Estou cansada e impaciente. Pensei ser a idade mas agora vejo que é o vigor, a radicalidade do vigor. Ainda tenho sangue suficiente mesmo sangrando. Estou apagando tudo que anda em círculo e não vibra em infinito. Os que se recusam a experimentar o experimental, em experimentar a vida como ela é, experimental. Os que derrubam os que estão a frente. Quero apenas aqueles que se permitem levitar, estendendo as mãos para quem está e para quem passa. Quero apenas aqueles que amam na dança épica. Porque é aí que não temos fronteiras, nem prisões, nem receitas, nem falas decoradas, nem papéis protagônicos, nem pré destino...Apenas somos e deixamos ser.
novembro de 2004
Meu aplauso!
ResponderExcluirNão há palavras que digam tanto.
Um belíssimo texto!
Flores...